DIA 1 DE NOVEMBRO, VEJA A VERSÃO OFICIAL DOS CONTOS
Horror em nanquim - Bonecos do Terror é o capítulo dois de uma coletânea que possui histórias de bonecas, fantoches e pelúcias brasileiras junto à releitura de títulos importantes internacionais como Brinquedo Assassino, Annabelle, entre outros.
O livro, ilustrado pelos artistas do Projeto Paralelo (além de ilustradores e escritores convidados), vem acompanhado de uma exposição de arte no espaço Draw Party dentro da escola de arte Modelo Design.
A obra conta ainda com conteúdo extra online, onde é possível ouvir as histórias em formato de audiolivro, através da publicadora MD Comics.
Era 1995, em Porto Rico, pela primeira vez ouvia-se aos
berros de pavor: “ Foi o CHUPA CABRA!”.
Nascia, assim, uma lenda contando histórias de uma criatura – terrestre? ou extraterrestre? – de corpo pesado e forte, olhos enormes avermelhados, pele cinza esverdeada,
cauda longa revestida por espinhos da cabeça aos pés.
Na noite, em matas densas, dava vazão ao seu instinto daninho, estraçalhando, sugando sangue de animais em pasto: preferencialmente CABRAS.
Arte - Antonio Lauriello Texto - Antonio Lauriello Locução - Antonio Lauriello
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MÉÉÉ..., MÉÉÉ...!
Um balir de medo, muito medo – pavor – ecoava repetidamente por um agrupamento de habitações em local distante do centro principal, encobrindo até mesmo o som do badalar dos sinos da igreja.
Noite chegara e a mata já de toda densa, tomada por densa escuridão, se via invadida por pesadas e ligeiras pegadas no encalço de rastros deixados por animais daquele pasto – um gado caprino.
Alvoroço animal ! Caça e caçador em duelos: ataques X defesas, ação e reação, poeira, folhas, galhos mexidos-remexidos, estalos de dor característicos de articulações
em atritos, quebradas, estouradas.
Cenário trágico na cor, no som, no cheiro-fedor de dor.
Em curto espaço de tempo, o bééé, bééé antes contínuo perde a intensidade, dando lugar a um “silêncio-medo”.
Pseudo calma.
Agora, o que se via era uma representação do contorno de
uma ... pessoa? Não, não! De um objeto? Nããão!
De tudo o que existe ou possa existir de algo corpóreo?
Será?
Podia ser tocado, percebido pelos olhos, pelo cheiro e ... pelo som: arfava em ritmo nadanormal, com esforço, com o que sugando algo.
Simmm..., sugava, sugava e sugava um volume definido, porém sem forma própria: um líquido venoso-carnívoro:
SAAANNNGUE !
Sim..., sangue que corria-escorria pesado do corpo dacaça-cabra. Sangue transformado, mastigado, salivado, deglutido.
Sangue chu-pa-do pela criatura-fera CHUPA CABRA.
Há diversos tipos de criação, há aquelas que são cultivadas como uma semente, outras, moldadas como argila, ou até aquelas forjadas como aço e há outras não saudáveis como armadilhas similares às teias de uma aranha. E a criação de uma porcelana? Ela exige a mistura de muitos minérios, preparos longos e depois assados em altíssimas temperaturas. Tornando-a um dos materiais mais duros e resistentes a riscos e pressões. Mas basta um impacto seco e forte e você terá dezenas de pedaços afiadíssimos.
Arte - Lorenzo Batista Texto - Emílio Roger
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Mas e quando não há amor, nem carinho, ou sequer um mínimo de reconhecimento. Onde se nasce e se vive é um pesadelo diário e ininterrupto, havendo apenas dor física e psicológica. E aquele que deveria ser o cuidador e protetor, é exatamente aquele que te fragiliza e quebra.
ARTISTA ORIENTAÇÃO 1 - MARIA LEITÃO
O fofo Lotso, último presente que a mãe de Lili deu a ela, antes de morrer, ganha consciência e uma sede de vingança enorme, ao ser abandonado no parque, após um piquenique. A energia funesta que o habita o guia até a casa da sua antiga dona, para se vingar.
Ali, vê Lili sendo repreendida pela madrasta, porque não consegue dormir sem ele. Lotso percebe que Lili não poderia tê-lo abandonado! Ele se materializa na cama da menina assim que a mulher sai do quarto. Lili o abraça e adormece; enfim, o erro foi desfeito, sente Lotso, tomado de amor.
Até que a madrasta entra de novo no quarto e, ao vê-lo com a menina, o retira dos braços da pequena, para jogar fora, novamente, a lembrança da mulher que a sucedeu. A sede de vingança de Lotso retorna, agora dobrada. E um brinquedo que abriga a última demonstração de amor de uma mãe não perdoa quem maltrata sua criança…
Arte - Maria Leitão Texto - Ana Claudia Marques
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Vanessa pegou, finalmente, após um ano naquela casa, o retrato de família e guardou na prateleira mais alta do armário. O enorme urso cor-de-rosa, com aquele aroma enjoativo de morango, foi o próximo. Não suportava ver a pequena Líli com ele para todo o canto.
Combinou com o marido uma saída naquele sábado. Um parque. Andar no parque. Líli andava com Lotso, o bendito urso, sem largar por um minuto. Até que adormeceu. O pai a pegou no colo. Vanessa recolheu a mochila da menina e a dela…menos o bicho de pelúcia.
Naquela noite, Líli chorou até adormecer, procurando seu urso de estimação. No parque fechado para o público, o velho urso jazia semi escondido por uma moita. Na sétima noite de choro copioso da menina, uma luz esverdeada projetou-se da casa e atingiu Lotso como um raio.
Já não era mais um urso de pelúcia velho. Lotso se movia sozinho, olhando suas patinhas, seus pêlos cor-de-rosa, tocando seu focinho aveludado. Dentro dele, havia uma fúria e um rancor, por ter sido abandonado, que o guiou até a casa de sua antiga dona.
Pela janela, viu a menina chorando e projetou-se para dentro do quarto. Líli começou a cheirar o ar, parou de chorar e falou: “Morango! cheiro de morango!” Desceu da cama e encontrou Lotso, perto da janela. A pequena só o agarrou forte, cheirou o seu urso tão confortante e que fizera tanta falta. O amor da menina ressoou dentro de Lotso e sua sombria energia de vingança foi instantaneamente refreada.
Abraçada ao urso, Lili adormeceu quase imediatamente.
No quarto do casal, Vanessa estranhou o silêncio. Será que aquela pestinha finalmente tinha dormido? Levantou-se da cama sem acordar o marido e foi até o quarto de Lili. Seu coração deu um salto, seus braços caíram ao longo do corpo, ao ver a menina abraçada com o urso preferido.
Mas como? Ela tinha certeza de tê-lo deixado no parque! O marido não deu por falta, não voltou atrás e nem prometera outro. Vanessa retirou Lotso dos braços da menina e desceu lentamente as escadas, no escuro.
Na cozinha, pegou um saco preto de lixo e enfiou o urso ali dentro, com fúria. Aquela garota não ia ter aquela felicidade, não mesmo! Saiu na rua e deixou o saco de lixo junto com os outros, que logo seriam levados pelo caminhão da limpeza.
Dentro do saco, o urso, reanimado e envolto pela energia verdolenga, compreendia tudo, enquanto a vontade de se vingar o dominava de novo. Num átimo de segundo, já não estava mais no saco de lixo, mas dentro da casa, na poltrona preferida de Vanessa.
A mulher, por sua vez, sussurrava ao celular com alguém. A distância não impedia Lotso de escutar cada palavra.
“Aquela garota não vai ficar entre mim e o pai dela. Acredita que ele comprou outro daquele urso fedendo a morango para ela sem me falar nada? Sim, ela hoje dormiu abraçada com o bicho. Logo agora que ele não estava mais aguentando ouvir ela choramingar toda noite, e até a chamou de insuportável esses dias! Já estava contando os dias para ele a enviar para a casa dos avós, definitivamente, e agora essa! Mas já me livrei dele, pode deixar!”
Aquela sinistra energia de rancor aumentou em Lotso. Ele começou a suar sua essência de morango, doce e penetrante, envolvendo todo o ambiente. Vanessa parou sua conversa. Desligou o celular e virou-se na direção do odor de morango, tão forte que a irritava.
Suas pernas bambearam. Lá estava o urso, em sua poltrona preferida. Será que Lili estaria brincando com ela? Impossível, a casa estava em silêncio. Ela se sentiu zonza e delirando. Poderia jurar que o urso sorria e emanava uma luz verdolenga. Um calafrio lhe percorreu a espinha, mas avançou em direção à sua poltrona.
Pegou o urso por um braço mas, desta vez, foi até seu escritório, na parte de trás da casa. Todos dormiam e era bom que assim permanecessem, enquanto pegava a tesoura, com raiva incontida e começava a cortar Lotso. Um braço, depois o outro. As duas perninhas do boneco. Se comprazia em tirar o enchimento branco, arrancar cada olho, o nariz felpudo, descosturar a boca, que ainda parecia sorrir para ela. Rapidamente juntou tudo o que sobrara do brinquedo de pelúcia e colocou em novo saco de lixo. Amarrou com força e o levou novamente para a frente da casa, bem a tempo do caminhão da coleta passar.
Dentro do saco de lixo, aquela energia densa trazia Lotso novamente à vida. Em um segundo, o saco de lixo murchou, enquanto uma luz verde voltava em direção à casa de Lili. Lotso estava intacto, novamente. E esperava o momento de se vingar.
Vanessa subiu as escadas no escuro. Seu coração começou a acelerar, de repente, quando sentiu no ar o odor de morango, doce e enjoativo, que tanto detestava. Olhou pela porta entreaberta de Lili. Nada ali. Devia estar cismada.
Seguiu em direção ao próprio quarto, onde o marido dormia e ressonava. Abriu a porta, descalçou as pantufas e pisou em algo macio no chão. A empregada limparia amanhã, pensou. Subiu na cama e reclinou-se para o travesseiro, quando o odor pungente de morango lhe acertou as narinas, ao mesmo tempo que encostava sua cabeça em algo peludo, que lhe gelou o coração imediatamente.
O pavor socou seu estômago. Acendeu a luz do abajur. Ficou petrificada, ao ver Lotso, intacto, em cima de seu travesseiro, com os olhos encarando-a fixamente e o enchimento de pelúcia do urso espalhado pelo chão. Um grito atravessou o ar.
O marido acordou na hora, assustado, a tempo de ver Vanessa sair correndo do quarto, gritando e descendo as escadas, rumo à porta de casa.
Ele tentou em vão chamá-la e segurá-la, mas ela partiu para a rua, descalça, falando coisas desconexas, tampando o nariz e tentando se limpar de algo que ele não via. Ligou para a polícia enquanto subia para o quarto de Lili, com o coração na boca, preocupado com a segurança da menina, após presenciar o surto de Vanessa.
Lili dormia abraçada com seu ursinho cor-de-rosa, o último presente de sua amada esposa, antes de morrer, dois anos antes. O resto da casa estava intacto, a não ser o chão de seu quarto, cheio de fibras brancas de enchimento pelo chão. Será que a louca da Vanessa tinha rasgado algum travesseiro ao surtar?
Vanessa foi encontrada duas horas depois, seminua, tentando entrar no parque, gritando para tirarem aquele fedor de morango da pele dela.
Enquanto era internada e sedada, amanhecia na cidade. Lili acordou com Lotso ao seu lado e gritou de felicidade quando viu, novamente em sua cabeceira, o retrato de si mesma com mamãe, papai e o urso.
Uma energia amorosa envolveu Lili e Lotso, que voltou a ser, como sempre deveria ter sido, somente um boneco. Lili estava segura e a mãe dela pôde, finalmente descansar.
Em uma metrópole, existia um castelo de uma família rica, formada por um casal que vivia viajando e parecia não ligar para seu filho, que não tinha contato com a sociedade. Orlando encontraria sua luz de esperança em seus dois amigos, em uma amizade secreta que transcende a vida. Juntos, aprenderam o verdadeiro significado de um sorriso, nesse castelo que parecia totalmente obscuro aos olhares de quem o avistava de fora.
Arte - Maria Leitão Texto - Thyago Bastos
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Nas grandes metrópoles, sempre existem dois lados: o bom e outro não tão bom assim. Há pessoas de diferentes classes sociais, alguns com sua renda já garantida, enquanto outros precisam escalar um enorme muro para garantir seu pão de cada dia.
Existem também os pobres de impérios tombados, aqueles que um dia já tiveram de tudo mas agora vivenciam o sabor amargo da derrota na vida.
Orlando faz parte dessa última categoria. Sua aparência era pouco atrativa, seus cabelos não cresciam e suas orelhas sempre foram muito grandes.
Ele era bom, mas não tinha amigos. Todos o julgavam pela sua aparência e seus pais, ausentes na maioria das vezes, quando iniciavam uma conversa com Orlando era em um tom autoritário, sempre dizendo:
“O dinheiro é a base de tudo. Com ele você se torna atraente, respeitado e não precisa se preocupar.Devemos apenas selecionar com quem nos relacionamos: se não tiverem os mesmo princípios que você, não perca seu tempo. Quando for a hora, acontecerá tudo naturalmente, não se preocupe”.
Orlando sempre ouvia os ensinamentos de seus pais e se colocava em posição de aceitação, mas não se sentia bem por algum motivo. Sentia como se algo estivesse errado.
Orlando morava em um castelo na região metropolitana, junto a uma família que servia de caseiros e morava aos fundos. Os pais de Orlando eram muito rígidos com eles, exigindo que os empregados trabalhassem muito cedo e, após as 7 da manhã, eram proibidos de circular nas dependências do castelo. Exceto nos horário das refeições e para servir às visitas, mas essas eram raríssimas no castelo.
Os pais de Orlando viviam em festas e negócios, muitas vezes passavam dias fora. Tudo o que Orlando ouvia deles era “estude para assumir os negócios da família”.
Orlando sempre ouvia seus pais, mas aquele sentimento diferente ainda o rodeava. Ele nem sabia como se portar ou como nomear aquilo, mas era um vazio… Solidão!
Seus pais não ligavam para esse tipo de coisa e pensavam que a resposta era única: dinheiro.
Em um certo dia, mais para o final de tarde, seus pais estavam fora como de costume. Orlando estava com aquele sentimento o rodeando, que cada dia mais o incomodava, deixando-o inquieto.
Lembrando-se dos conselhos de seu pai, foi até o escritório particular das dependências do castelo e abriu o cofre da família. Orlando descobriu a senha em uma das poucas vezes que viu seu pai mexendo no cofre e abrindo-o, com um sorriso. Foi uma das poucas vezes que viu seu pai sorrir e, por isso, aquilo ficou gravado em sua memória.
Em frente ao espelho, Orlando até tentava reproduzir a expressão de seus pais, porém sem sucesso.
Por meses, entrava no cofre, deitava-se em meio às moedas e notas e tentava sorrir como seu pai. Até que um dia, algo diferente aconteceu.
Ele ouviu um ruído na parte superior do castelo. O que Orlando não sabia era que aquilo eram risadas, então acabou seguindo o som até chegar em uma porta que pela primeira vez estava aberta. Essa porta nunca havia chamado a atenção por sempre estar coberta de entulhos e materiais de limpeza.
Mas, desta vez, existia uma luz em meio a escuridão. Além disso, o som continuava a ecoar naquela sala.
Ao entrar, ele se deparou com Ciclo’ops brincando. Eles não haviam percebido sua presença e tinha algo diferente neles: o sorriso, parecido com o do seu pai, porém sem notas ou moedas por perto.
Ao perceber a presença de Orlando, Zephyr e Abreu ficaram em pânico, arrumaram-se ao mesmo tempo que se desculparam, já prontos para bater em retirada.
Os dois pediram perdão e imploraram para não contar ao senhorio que estavam ali.
Orlando disse que não havia problema e explicou que não falava com ninguém há muito tempo. Disse que os dois poderiam ficar ali e que não contaria para seu pai, mas com uma promessa:
Que a partir de agora ele também iria àquela sala toda noite, e que os dois o ensinariam a fazer aquele movimento com o rosto.
Orlando queria aprender a sorrir da mesma forma que seus amigos… Da mesma forma que seu pai.
Passaram-se meses e Orlando se tornou amigo de Zephyr e Abreu. Eles passaram a compartilhar histórias e brincadeiras, sempre alertando Orlando de que essa amizade nunca poderia ser revelada pois os dois foram adotados como servos da casa que nunca deveriam se aproximar de Orlando por serem de níveis diferentes.
Orlando dizia que desde que fossem amigos, não se importava em manter segredo.
Com o passar do tempo, Orlando, Zephyr e Abreu se tornavam cada vez mais próximos e menos cuidadosos. Certo dia, o pai de Orlando permaneceu no castelo e isso foi o suficiente para descobrir o relacionamento secreto de seu filho.
Naquele momento, o senhorio não se pronunciou, mas se retirou em silêncio do local onde os três brincavam, com ódio no rosto.
Em um certo dia, como de costume, Orlando esperou seus pais saírem para ir ao encontro de seus preciosos amigos. Porém, ao chegar na sala, ele não os encontrou… Pelo menos, não da mesma maneira: Zephyr e Abreu haviam se tornado parte da coleção particular do Senhorio.
Zephyr agora atravessava portas e paredes e recebeu o nome de Briza. Por sua vez, Abreu não sentia mais sono, frio ou fome. Tinha o corpo diferente, mal cheiroso… E recebeu o nome de Atadura.
Mesmo com tudo o que havia acontecido, Orlando continuou enxergando os dois como seus amigos preciosos. Não importava a aparência deles, mas o sentimento de amizade entre eles. Orlando jurou que ficariam juntos para sempre.
Mas o senhorio não era apenas um figurão rico, e sim um bruxo que fazia trabalhos para a alta sociedade em troca de riqueza.
Com a fama e o poder, o pai de Orlando ficou cada vez mais procurado e tornou-se odiado por muitos.
Passado um tempo, o senhorio abandonou o castelo com toda a riqueza que tinha e deixou Orlando para trás sem nem pestanejar. Ele sentiu-se abandonado, mas superou a tristeza com a ajuda de seus amigos.
Com o passar dos dias, Orlando percebeu que não era como os outros. Não só pela sua aparência, mas porque percebeu que não comia. Apenas bebia um suco especial que seu pai o ensinou a preparar a partir da vida de outros seres vivos. Orlando também se sentia melhor e mais revigorado a noite. A luz do sol o incomodava e, muitas vezes, até o machucava.
Percebeu que estava ficando com carteristicas mais próximas a de seus amigos e achou que era bom, já que os amava.
Como o castelo passou a ficar sem manutenção com a partida do senhorio, os três não precisavam mais esconder sua amizade. Porém, ainda mantiveram o costume de brincar ao pôr do sol. Orlando ainda continuava estudando por hábito, já que entendeu que era algo que lhe fazia bem.
Anos depois, Zephyr (agora Brisa) e Abreu (agora Atadura) decidiram nomear Orlando como o novo senhor do castelo. O símbolo da coroação foi uma capa surrada, mas que eles achavam muito bonita - lembrava a do heróis dos quadrinhos que Orlando adorava.
Atadura e Brisa tornaram-se criaturas da noite juntos ao senhor do castelo, Orlando, que tornou-se conhecido como Bruce Pernilongo.
Quando a pequena Laurinha esquece sua adorada boneca de pano, Annabelle, na escola de desenho, o brinquedo se torna o receptáculo perfeito para Biruleibe, um espírito travesso e solitário que vaga pelo escuro. Na manhã seguinte, os alunos se deparam com um cenário de arrepiar: materiais de arte sumindo misteriosamente e seus desenhos sendo alterados por uma força sobrenatural com um senso de humor um tanto peculiar.
Arte - Pedro Lucas Texto - Paulo Marsal
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A pequena Laurinha, de apenas seis anos, amava sua boneca de pano chamada Annabelle. Um dia, após uma tarde de muita criatividade, Laurinha acabou esquecendo a companheira em sua escola de desenho.
Quando a noite caiu e as luzes se apagaram, a sala de aula ficou escura e assustadoramente silenciosa, criando o cenário perfeito para um espírito muito levado conhecido como "Biruleibe". Sem ter com quem brincar e vagando pelos corredores escuros, Biruleibe encontrou a boneca solitária no chão e decidiu possuí-la, transformando a inofensiva Annabelle em uma criatura com vontade de aprontar.
Na manhã seguinte, a atmosfera na escola de desenho estava misteriosa e arrepiante. Quando os coleguinhas de Laurinha chegaram, começaram a notar que seus materiais estavam magicamente sumindo.
Lápis de cor desapareciam de dentro dos estojos fechados, e borrachas rolavam sozinhas para os cantos mais escuros debaixo das mesas. No fundo da sala, sentada em uma prateleira, Annabelle parecia observar tudo com um sorriso que, de alguma forma, estava mais largo e sombrio do que o normal, provocando um calafrio na espinha de quem olhasse muito tempo para ela.
O medo da turma aumentou quando as obras de arte das crianças começaram a ser modificadas por uma força sobrenatural. Bastava virar as costas por um segundo para encontrarem bigodes pontudos desenhados nos rostos de seus personagens e paisagens inteiras pintadas com as cores mais absurdas, como céus laranja e grama roxa.
O pavor tomou conta dos alunos quando perceberam que Annabelle não estava mais na prateleira, mas sim sentada no meio da mesa principal, com as mãos sujas de tinta e segurando um giz de cera preto.
Inicialmente, o terror fez com que todos dessem um passo para trás, tremendo diante da boneca macabra, mas logo o silêncio tenso foi quebrado por uma risada. Um dos meninos notou que o bigode desenhado em seu gato o deixara extremamente engraçado, e todos perceberam que aquelas travessuras não eram para fazer mal, mas apenas uma forma muito desajeitada de pedir para brincar.
As crianças, mostrando uma coragem admirável, sentaram-se ao redor de Annabelle, emprestaram-lhe mais lápis de cor e começaram a desenhar junto com ela, transformando o espírito travesso no mais novo amigo da turma.
Essa amizade inesperada e o som das risadas sinceras foram suficientes para quebrar a maldição de Biruleibe, que estava preso em suas travessuras apenas por se sentir muito sozinho. Com o coração cheio de alegria por ter sido aceito pelas crianças, o espírito se despediu com um brilho suave que iluminou a sala e partiu, flutuando, para o plano espiritual.
Annabelle voltou a ser apenas a boneca macia e quietinha de sempre, pronta para os abraços de Laurinha, deixando para todos a lembrança de uma manhã assustadora que se transformou na melhor aula de desenho de todas.
O quão protegidos estamos, quando há julgamentos sobre o que somos e fazemos? Pessoas se tornam bonecos nas mãos de inescrupulosos ou ignorantes, e ninguém escapa quando o assunto é o mau dizer. Maledicências e rumores são como agulhas que penetram sem serem vistos. Uma preocupação inocente, dita da forma errada, pode facilmente virar uma doença que se espalha como ervas daninhas até ser tarde demais. Fique atento, pois o fantoche nem sempre é o alvo. Mas sim aquele que ouve.
Arte - Sofia Akemi Texto - Emilio Roger
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Nem tudo que achamos conhecer é da forma que nos foi apresentado. Estórias ficcionais costumam distorcer e deturpar, em maior ou menor escala, a essência das coisas. Trazendo consequências, às vezes, irreversíveis.
Os Cruodos são criaturinhas e um tipo de planta, habitantes do planeta Strinx,que já se proliferaram tanto pela terra que passaram a se tornar um problema para seus habitantes, pois eles possuem uma fome voraz por metais. Mas que coincidência. Eles nasceram em um lugar cheio de robôs em construções metálicas, mas agora eles estão aqui além de outras dimensões, onde já estão até sendo adotados por causa de sua fofura!
Arte - Luís Ayala Texto - Salviano Borges
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Strinx! Um planeta localizado em uma quarta dimensão depois da galáxia da terra com cerca de 7,1 bilhões de habitantes controlada por 3 nações de Strinkinianos, sendo uma delas um regime autoritário que tem a missão de controlar o planeta por completo.
Mas nem todos habitantes eram ligados a essa burocracia maçante de como era comandado aquele lugar, assim como talvez os 3 tripulantes de uma nave que fazia segurança e protegiam aquele planeta. Eles eram bem unidos em um oficio tedioso e por longos anos eles nem sabiam o que era colocar os pés no chão. Esse grupo era composto pelo pacato Tarcio, o irreverente Finn e a amável Nancy. Passavam o dia todo se divertindo com jogos de poker, era nesses momentos de jogatina que eles mais se uniam, abrindo seus sentimentos e contando seus planos diante das longas saudades de suas famílias em Strinx, do qual eles juraram proteger.
Tarcio era um cara muito querido entre os demais na nave. Lembrava de sua família orgulhoso sendo um marido fiel a distância, pai muito protetor de um casal de filhos, chorava ao lembrar do nascimento de cada um. Era um homem esforçado, cheios de soluções para organizar o ambiente de trabalho privando problemas aos companheiros em missão.
Finn era o cara que acordava tarde, só pensava em comer e fazia graça quando tudo na nave estava tenso, ele era o controle emocional da turma que dançava de cueca remexendo a barrigona em cima da mesa fazendo todos chorarem de rir. Qualquer um podia estar triste, mas nunca próximo ao Finn que fazia piada com tudo.
Já a Nancy era uma jovem bastante delicada, inteligente, focada em meio ambiente, era nota 10 em ciências de natureza ecológica. Tinha sonhos de trabalhar na área cientifica do grande escalão de Strinx, porém todos esses cargos não eram permitidos a mulheres e ela só estava em missão graças a uma longa amizade com o Tarcio
A nave passava por precariedade a ponto de parecer que eles foram esquecidos no espaço. Os computadores de comunicação com a base em Strinks estava incomunicável e eles esperavam o reabastecimento de proteína sintetizada pois já tinha bastante carboidrato no estoque. Finn foi responsável em receber os suplementos faltantes, e ficou preso entre a porta de compartimento de carga. Que funcionava de tal modo: uma porta abre e fecha assim que ele passa pra fora em um corredor de segurança, onde a porta geral da nave abre dando acesso ao espaço pra receber as entregas. Finn tem pouco tempo para esse ato pois sua roupa tem toda uma tecnologia em um tempo exato para concluir essa tarefa. Porem naquela noite as luzes da nave desligaram parando todo o funcionamento da missão, com toda os nutrientes recebidos, Finn ficou preso para fora em desespero pois seus equipamentos de respiração falharam, o deixando sem alternativas para sobreviver com toda a aquela angustia. A Nave voltou e desligou em um refluxo de segundos onde ao tentar entrar, seu braço foi amputado o arremessando para o espaço de forma fatal.
Meses de luto! o silencio tomou o lugar de Finn, e os computadores de comunicação a tempos não funcionavam mais. Já era um consenso de que ali eles tinham seus últimos dias de vida. Mais meses se passaram e as tarefas emudecida se concluíam entre Tarcio e Nancy para melhor sobrevivência, as maquinas de comunicação não funcionavam, mas por algum motivo aquele ambiente fazia um ruido como se houvesse uma comunicação da nave com eles. Muitas vezes em seu dormitório, Nancy se sentia observada, mas ao verificar o quarto de Tarcio, percebia o seu ronco ensurdecedor. Mesmo assim ela estranhava que na sua privacidade as coisas sempre se encontravam fora do lugar. Habitualmente ela dormia chorando, fazendo cálculos e se despedindo de seus sonhos distantes.
Em uma das madrugadas houve um apagão geral da nave, Nancy foi acordada com objetos de vidro se quebrando, quando de repente sentiu alguém pulando sobre ela, a imobilizando, encurralando em um agarramento violento e forçando as barreiras de seu íntimo. Algum estranho rasgava sua roupa enquanto tentava asfixia-la. Já entrelaçada, nua em meio a um longo desespero, Nancy se safou com os cacos de um quadro atingindo o agressor na garganta. A energia da nave voltou acendendo as luzes desvendando Tarcio despido e morto. Nancy o trancou naquele quarto e passou a só ficar na base de controle da nave. Seu choro virou dor por meses, seu corpo virou uma prisão do qual ela não se encontrava mais.
Mais meses se passaram e os ruídos da nave já não assustavam Nancy, até que um dia o barulho se revelou, era um Cruodo. Uma criaturinha peluda que pulava de um canto a outro e só tinha braços pra se pendurar nas coisas, Nancy não estava mais sozinha e aquele bichinho o trouxe a esperança para sobreviver.
Os anos se passavam e Nancy já não conseguia mais racionar os suplementos de carboidrato, sua aparência era de acabada, sua energia esgotada e mal conseguia se manter em pé. Com o bug daquele sistema o lugar esfriava a ponto de causar febre em Nancy e seu único desejo era a morte. Mais Cruodos se revelaram se unindo formando um imenso cobertor peludo aquecendo o corpo dela, pois os Cruodos são criatura bem malucas, desordeiras e agitadas, porem seres extremamente bondosos, protetores e fofos.
Mais meses e Nancy se arrastava debilitada, fraca e a fome já era uma dor sem cura.
Em um lapso de minuto um dos computadores ligou comunicando que na base de Strink iria resgata-la. Nancy abraçou seus Cruodos e agradeceu por trazer mais um pouco de vida. Seguindo ali, ela também percebeu os fios tecnológicos eram alimentos desses bichinhos inofensivos.
Nancy delirava sorrindo, sonhando que era uma cientista renomada de Strinx, até que o oxigênio da nave não alcançou o resgate. Meses depois aquele imenso caixão que a nave se tornou explodiu arremessando os Cruodos pra vários lugares do espaço, incluindo a nossa Terra.
Os Cruodos são criaturinhas e um tipo de planta, habitantes do planeta Strinx,que já se proliferaram tanto pela terra que passaram a se tornar um problema para seus habitantes, pois eles possuem uma fome voraz por metais. Mas que coincidência. Eles nasceram em um lugar cheio de robôs em construções metálicas, mas agora eles estão aqui além de outras dimensões, onde já estão até sendo adotados por causa de sua fofura!
Arte - Thyago Bastos Texto - Salviano Borges
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SOBRE CÁPSULAS PROTETORAS
Naquele planeta conhecido como Strinx, emergido em conflitos restritos entre as nações, o que era conhecido como uma terra pacífica se transformou em guerra. Bombardeios eram lançados em todas as direções, destroçando paisagens, secando rios e dizimando milhares de vidas.
A cada era as bombas evoluíam até a ultima ser lançada sem aviso sobre a cidade, causando não só destruição, mas despertando uma epidemia tão terrível e devastadora que dizimou violentamente os strinquinianos, além de outras espécies.
Imediatamente os cientistas foram acionados para encontrar alguma cura que pudesse parar com aquele horror. Em pouco tempo a corrida por uma solução tornou-se uma prioridade, as autoridades exigiam datas e prazos. Campos de quarentena foram montados e a cada dia se expandiam em mais territórios. Os cientistas iniciaram os testes em seres microscópicos, depois com insetos, até chegarem aos animais que ainda apresentavam alguma resistência à doença, mas todos eles morriam no caminho.
Certo dia, enquanto o dr. Demétrio fazia uma expedição pelas matas próximas com seus alunos, ele viu um mounstrin fugindo dele pela mata. Ele criou uma armadilha e por fim conseguiu apanhá-lo. O mounstrin relutava assustado dentro da gaiola, mas o doutor conseguiu acalmá-lo dizendo que não faria mal nenhum a ele. Assim que eles voltaram para o laboratório o Dr. Demétrio alimentou a pequena criatura enquanto o observava fascinado. Depois disso fez vários testes e percebeu que o mounstrin estava completamente saudável, não havia nenhum sinal de qualquer doença. As autoridades, assim que descobriram a respeito da possível cura, ordenou para que focassem na otimização de novas bombas epidêmicas demonstrando que soluções de vacinas eram irrelevantes.
Tommy era o único filho do Dr. Demétrio e sabia que ele era um homem muito importante e respeitável em seu cargo, mas raramente tinha tempo de visita-lo em casa. Sua mãe dizia que ele voltaria em seu aniversario de 7 anos, mas estava tão longe dessa data que ele mesmo saia as escondidas da escola para brincar nos arredores do laboratório. Com o tempo ele descobriu passagens secretas que levava até os corredores proibidos para quem não tinham os crachás. Mas Tommy sabia se esconder bem e como era bem pequeno ninguém percebia sua presença.
Passando de setor em setor, Tommy encontrou uma sala cheia de animais presos dentro de gaiolas. Todos estavam com algum dispositivo na cabeça ou pelo corpo, mas ele não entendia qual era sua finalidade. Tommy percebeu que dentre eles havia uma espécie nova que espantosamente parecia compreendê-lo, embora não falasse a sua língua. Com o tempo descobriu que ele sabia voar com suas orelhas, só não o fazia porque estava preso na gaiola. Tommy ficou triste por não ter as chaves para libertá-lo e até se machucou com a tentativa de abrir suas arestas. Mas para sua surpresa o mounstrin curou sua ferida. Era esse o seu dom. Desde então Tommy passou a visitá-lo sempre que podia e se tornaram grandes amigos.
De vez em quando Tommy via algumas pessoas excêntricas que eram despidas dentro de uma sala. Tommy desviava seus olhos para não vê-los nus, enquanto suas cabeças eram raspadas, e logo em seguida eram guiados até uma porta onde estava escrito “teste a gás”, mas nunca as viam saindo de lá. Ele deduzia que seu pai pensava em tudo, até no banho das pessoas doentes, por isso que acreditava que ele era um verdadeiro herói.
Certa vez, quando estava indo embora encontrou seu pai andando pelo corredor, ele o seguiu em segredo até vê-lo entrar por uma porta, que se fechou logo em seguida. Tommy não pode entrar com ele, mas pode ver através de uma grande janela que no piso inferior havia uma cápsula parecida com uma espaçonave. Tommy ficou tão admirado com aquele artefato que imaginou que pudesse voar pelo espaço com o tal equipamento.
Observou o seu pai conversando algo com sua assistente do outro lado, mas não podia escutá-lo. Seu pai já estava decidido que no dia seguinte iniciaria uma nova avaliação com um dos mounstrins, pois ele já havia passado por todos os testes primários e se mostrava muito resistente a tudo. Se ele sobrevivesse a cápsula isso significaria o sucesso para os objetivos que lhe foram designados.
No dia seguinte, a mãe de Tommy ligou insistentemente para o dr. Demétrio perguntando se o mesmo havia visto o seu filho, pois ele não havia dormido em casa naquela noite. Impaciente o Dr. Demétrio desligava o telefone, pois estava prestes a concluir seu experimento e não podia se preocupar com problemas domésticos, pois nada importava mais do que a cura do mundo. A mãe de Tommy tentou ligar mais uma vez, quando, enfurecido, o doutor desligou o dispositivo geral de comunicação familiar.
Voltando a atenção para seus cálculos, o Dr. Demétrio deu seus últimos comandos aos seus assistentes e assim que o maquinário estava aquecido finalmente o botão vermelho foi acionado. De repente a contagem regressiva se iniciou até que alguns raios foram disparados contra a estrutura capsular.
Assim que tudo terminou o botão verde começou a piscar e uma voz mecânica disse “O teste foi executado com sucesso.”. E após alguns minutos um frasco de líquido avermelhado rolou por um pequeno compartimento. O Dr. Demétrio o apanhou e o olhou contra a luz. Em seguida todos vibraram comemorando a vitória do antídoto.
Por fim, para se ter certeza de que tudo havia ocorrido bem, eles abriram a porta da cápsula e imediatamente foram golpeados pelo odor de carne queimada que inebriou o ambiente. Havia marcas desesperadas pelas portas e pelas paredes como se alguém tentasse escapar de seu interior. Quando a fumaça abaixou se depararam com o que restou de um pequeno corpo carbonizado, abraçado com um mounstrin, que havia morrido em posição de defesa. Apenas um par de sapatos se manteve intacto com o nome de Tommy.
Solange, uma adolescente e estudante comum, é obediente e tem pais que estão sempre muito ocupados. Seus únicos momentos de frescor são no celular, o que se torna um convite para conhecer um ser desconhecido através do silêncio.
Sua conexão com o ser de roupas totalmente escuras, máscaras bizarras no ombro, uma vela na mão direita e um celular na esquerda, que se autointitula Lamúria Digital tem se intensificado por suas visitas constantes, apesar da presença dos amigos e da família.
Solange, é uma adolescente e estudante comum, ela é obediente mas seus pais estão sempre muito ocupados. Seus únicos momentos de frescor são no celular, o que se torna um convite para se conectar com um ser misterioso através do silêncio.
O ser possui roupas totalmente escuras, máscaras bizarras no ombro, uma vela na mão direita e um celular na esquerda, e se autointitula Lamúria Digital, a conexão se intensifica por suas visitas constantes, apesar da presença dos amigos e da família.
Arte - Pedro Feres Texto - Thyago Bastos
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CONTO COMPLETO
Em um bairro metropolitano mora Solange, uma garota comum que está transicionando dos 17 aos 18 anos, pertencente a uma família de classe média. Seu pai é advogado e sua mãe, médica, conseguiram prover todo o conforto possível para sua única filha, juntamente com a lição para que estudasse muito, sempre.
Muito calada e obediente, mantinha seu quarto limpo e estudava sempre que podia. Fazia suas ceias (refeições noturnas) em família, já que até nos finais de semana seus pais continuavam trabalhando.
Ganhou de aniversário um novo celular, já que o anterior tinha pouca memória e apresentava problemas de conexão com a internet. Agora, Solange passou a ter acesso a novos recursos, inteligência artificial e até jogos, embora não fosse muito fã. Mas o uso principal era para aumentar o contato com seus pais através das videochamadas.
Solange tinha poucos amigos, mas os tratava com muito carinho. Aquele ano letivo estava turbulento, devido à quantidade enorme de trabalhos, provas, cursos de reforço escolar e aulas particulares. Afinal, por ser filha única, carregava muitas expectativas e também inevitavelmente sofria muita pressão.
Com o tempo, Solange passou a encontrar conforto navegando no celular após a ceia diária. Certo dia, no horário do intervalo da escola, Solange percebeu que suas amigas estavam meio distantes, cada uma compenetrada em seu respectivo celular.
Ao perguntar qual era a novidade, as garotas desconversaram e alegaram que eram aleatoriedades, mudando de assunto em seguida, voltando a reclamar das longas jornadas de estudos.Solange desconfiou, mas não queria bisbilhotar. Então, o intervalo terminou com o clima estranho.
No dia seguinte, o mesmo aconteceu. Assim, Solange resolveu guardar seu celular nos intervalos e passou a apenas observar a sua volta. Reparou que todos estavam compenetrados em seus celulares e o intervalo estava até silencioso.
Solange voltou para casa frustrada e assustada com toda aquela esquisitice. Sentia como se o tempo tivesse parado. Durante a ceia, seus pais notaram seu incômodo, porém Solange desconversou, dizendo ser estresse devido às provas finais.
O dia seguinte estava chuvoso, já escuro mesmo de manhã. Solange percebeu que todos estavam quietos durante uma aula vaga - o que era completamente atípico. Todos novamente estavam calados, olhando para o celular.
Quando Solange observou com mais cuidado, percebeu que os rostos de todos estavam meio pálidos, sem brilho algum: o branco dos olhos havia desaparecido e os olhos haviam se tornado totalmente escuros
.
Pela visão periférica, percebeu alguém muito alto passando pela porta, por entre os corredores da sala de aula. Sua espinha gelou e seu rosto esquentou. Suas mãos começaram a suar frio, as pernas tremiam e sua respiração ficou curta. Não tinha como ser apenas sua imaginação. Ao olhar em seu redor, todos permaneciam imóveis. Não se ouvia um único som.
Muito assustada, Solange perguntou se todos estavam bem. Nesse momento, alguém toca em seu ombro. Uma figura alta, envolta em uma capa preta, vestindo uma máscara branca no rosto, enquanto seus ombros também trajavam duas máscara medonhas: uma aparentava ser um corvo, enquanto a outra apresentava um sorriso maligno. Em suas mãos, dois itens: na direita, uma vela e, na outra, um celular.
Em um primeiro momento, Solange se assustou, mas logo pensou que era uma pegadinha. Com raiva, dirigiu-se até a diretoria para se queixar com o coordenador. Ao chegar na sala, sentiu o ar gelado. Além disso, aquele silêncio parecia a acompanhar por onde fosse.
Ao encontrar seu coordenador, que estava vidrado no computador, chamou-o sem resposta. Ao seu redor, nota todos parados em frente aos celulares. Solange se aproxima e percebe que seu chefe está estático, com o olhar fixo na tela do celular que estava apoiado no monitor.
Sentiu uma vibração em sua perna. Era seu celular tocando, mesmo sem acesso a nada… Percebeu que recebeu um vídeo. Nele, ela se viu em casa, sentada à mesa da cozinha enquanto fazia a sua refeição costumeira e seus pais tentavam abordá-la, sem sucesso.
O vídeo muda para seu quarto, mostrando-a deitada em sua cama, com os olhos vidrados no celular por toda a noite, até o amanhecer. Em seguida, aparece o intervalo da escola, onde ela vê suas amigas tentando conversar com ela, mas sem resposta.
O vídeo continua mostrando vários momentos com Solange se isolando cada vez dos dos amigos, dos pais, trancando-se em seu quarto… Até que finalmente, o celular se desliga.
Nesse instante, Solange percebe que era ela quem estava presa e que aquele ser veio lhe buscar. Ao olhar para os lados, nota tudo meio escuro e ouve seu coração bater rapidamente. Solange perguntava onde estava e tentava pedir socorro em vão. Sua voz não saía.
Novamente, percebe a criatura em meio à escuridão. Apenas duas luzes iluminam o ambiente: a do celular e uma muito mais fraquinha - a da vela que, agora estava por um fio.
O ser resolve tirar sua máscara. A visão é assustadora: não existe um rosto, apenas uma tela de celular com uma foto de Solange, segurada por uma mão feminina e outra masculina. Com seus dedos indicador e médio, a criatura apaga a pequena chama que havia na vela, enquanto Solange faz a única coisa que conseguia no momento: fechar os olhos.
A noite está fria, mas minhas ferramentas são mais. Mais ainda é meu coração. Ou seria, se eu ainda estivesse vivo. Hahahahaha, que ilusão! Espera, eu ainda consigo sentir isso?
Explodido, mais uma vez. Será que esse pessoal não aprende nunca? Deve ser a vigésima vez que me atam a uma banana de dinamite e me lançam por um barranco. Mas eu sempre volto. Vai levar um tempo, é verdade. Mas inevitavelmente estarei inteiro e pronto para aterrorizar quem eu quiser. Posso até caçar esses cretinos que me colocaram aqui, mas talvez eu queira fazer alguma maldade antes no meio do caminho, hehe.
Arte - Guilherme Terrabuio Texto - Luís Ayala
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BRINQUEDO ASSASSINO
Há quanto tempo faço isto? Muito, mas o interessante é que nem sempre foi assim. Na época em que eu tinha outro corpo, quando cheirava forte a hormônios, tinha terra sob minhas unhas e comia em qualquer podrão da estrada. Bons tempos… época boa em que mesmo dar uma mijada em qualquer banheiro fuleiro também tinha seu valor. Maaaas tudo mudou quando eu quis mais. Maldita seja aquela coceira. Anseios por querer mais só trazem a ruína. Assaltar pessoas não era o bastante, então comecei a roubar bancos. Desviver infelizes era pouco, então passei a mirar em oficiais da lei, como policiais, advogados e bombeiros. Na verdade não durou muito tempo não: em um piscar de olhos já eliminava quem quer que fosse parar na minha frente e não fosse com a minha cara.
Até que ELE aconteceu.
Fugindo de um tiroteio? Claro, eu não era imortal como agora, estava morrendo de levar um pipoco e acabar virando presunto num beco qualquer. He, ainda me lembro da adrenalina daquela noite. Mas enfim, onde estávamos? Ah, sim: a queda.
Na fuga, correndo sem ver direito um palmo à minha frente, começou a chover. Mais essa ainda, pois é. Procurei guardar minha arma e evitar denunciar minha posição, enquanto fazia a curva em uma rua. Eles ainda não desistiam de mim e disparavam às minhas costas. Cansado mas sob o efeito dos tóxicos (o quê, um homem tem direito à seu momento de lazer ué), decidi cortar caminho por um parque e atravessar a cidade pelo metrô. Nessas horas, QUALQUER lugar era melhor do que estar ali.
Mas não sabia que JUSTAMENTE nessa semana os caras tinham decidido fazer uma obra no meio da rua. Poxa, e eu como fico? Amaldiçoei todos e busquei rapidamente uma alternativa. Cadê aqueles bondinhos que tinham no centro? O trem das 11 famoso que só?
Eis que vejo entre os tapumes e demais barreiras, uma parte descoberta. Pumba, minha fuga ainda tinha uma saída! Me lancei o mais rápido possível para aquele canto e não reparei que na pressa, de algum modo cortei uma parte do braço nos ferros. A tensão era tanta que não senti nada na hora, mas o rasto de sangue acabou me denunciando. Tomar um x-9 de si mesmo é de lascar, tendeu? Em todo caso, continuei correndo e me deparei com que parte daquela trolha toda era por conta de uma obra do shopping. Se era fachada, pixação, janela quebrada, pouco me importava. Apenas que era uma chance a mais de sobreviver ao frio e chuva.
Entrei e logo corri para um banheiro distante. Precisaria ver como me encontrava ou se havia me tornado um queijo suíço. Ofegante, mas sorridente, conclui que os havia despistado. “Há, ninguém me pega nessa cidade!” pensei, mas antes que pudesse gritar de felicidade, senti um frio no corpo: algo havia dado ruim. Estava mais pálido do que o normal (que foi, nem todo mundo gosta do sol, compadre) e minha pressão começava a cair. Tateando pelo meu peito e costas atrás de qualquer rasgo ou buraco me deparei com o corte em meu braço. Sangrava ferrugem ou algo assim. Pensei “Que m*rda é essa?”
Abri os olhos e me deparei com 3 policiais me escoltando com alguns paramédicos em uma maca. Ao que parece, eu tinha pego tétano ou qualquer coisa assim naquela presepada. O susto e a adrenalina já estavam no limite e o meu corpo já estava cansado de tanto correr.
Eu já mencionei o quanto detesto trairagem? Por isso sempre agi sozinho, mas tomar um roda do seu próprio corpo 2 vezes na mesma noite era demais até pra mim. Com alguma sorte que claramente não era ao meu favor, me encontraram no chão e aplicaram primeiros-socorros. Com soro e uma bolsa de sangue na veia, eu deveria durar até chegar ao hospital mais próximo e de lá, o xilindró me esperava. Sem tempo irmão: prendi a respiração e esperei que eles fossem fechar as portas da ambulância (uma só para mim, não precisava), para empurrar com todas as forças que ainda me restavam a maca. Ninguém entendeu direito o que estava acontecendo, o que provavelmente garantiu minha segunda fuga nessa noite (há, agora que noite, mas tem alguma coisa com esse número 2 que me persegue). Caí (dãah), mas as fivelas não estavam apertadas o suficiente, me favorecendo escapar. Corri e corri, sem olhar para trás, o dinheiro que havia pego poderia esperar, eu tinha algumas jóias em meus bolsos internos (isso que é pensar grande).
Mas como disse, ELE estava lá. Um zé ninguém que passa por despercebido na multidão. Um jão qualquer sem nada grande pra fazer na vida ou melhor para fazer nessa e qualquer noite. Um mané tão sem sal que sequer lembro de qualquer característica dele.
Só me lembro dele me perseguir e alcançar até o elevador de carga. Quem era esse cara? Porquê me perseguia tanto? Seria pela recompensa sobre a minha cabeça? Qualquer que tenha sido o motivo (hey, não faria diferente por um valorzinho interessante), me agarrou com força e jogou ao chão. Antes de ceder, consegui passar a mão nos botões e chamar a minha bendita carona. Chutei o zé ruela e me arrastei para a porta. Ele segurou minha perna (ainda bem para mim que o corte era no braço e não nela) e me puxou com muita força. Ou eu estava fraco demais para revidar ou ele era um rato de academia, mas eu senti que por um instante estávamos de volta à escola na classe de educação física. Para ser mais específico o cabo-de-guerra. Chutei com a outra e devo ter gasto tudo o que restava da dona sorte naquele golpe porque acertei bem na fuça. Há, não iria me pegar tão fácil (fraco talvez, vulnerável nunca). Ao escutar o som do elevador chegando, um sorriso invadiu meu rosto e a ideia de liberdade preencheu minha mente. Um pouco mais e estaria em qualquer motel barato com uma garrafa de um espumante caro aliviando minhas dores físicas e sentimentais (ei, ei, ei, um bandido também tem sentimentos, capiche?).
Mas uma surpresa me aguardava: estava vazio! Não tinha um vagão naquele andar!!! Me virei para trás e de alguma forma ele estava atrás de mim, novamente me segurando com uma força sobrenatural. Me debati como pôde, até que no meio da briga, ele me olhou com uma cara diferente. Me fitou sinistramente e num movimento mecânico, me largou, assim como se fosse nada. Caí sem entender nada; como assim após tanta luta, agora ele simplesmente desistia e me lançava como lixo?
A última coisa da qual me lembro foi de cair, mas sem sentir dor. Meu corpo jazia em pedaços e feito uma sopa densa de qualquer coisa que se tenha dentro de si (não olha pra mim, não sou médico, veterinário ou qualquer outra p*rra dessas). Minha visão nublada e desvanecida. Restava pouco alento em minha boca, mas recordei um dos motivos de porquê eu fazia o que fazia esses anos todos: nunca tive um amigo para chamar de meu. Casas, roupas, jóias, carros, qualquer coisa era fácil de se ter ou tirar. Mas um amigo não. Nem sequer quando eu tentava pegar um cachorro ou peixe. Eles optaram por fugir ou falecer a ficar comigo. Então eu continuaria a tomar dos outros o que deveria ser meu, o que era meu por direito também. Fitei uma caixa de brinquedos descartados (assim como eu), e justamente um deles tinha uma inscrição que ficará marcada em minha alma pelo resto da minha existência: eu quero VOCÊ como meu melhor amigo.
Acordei triste (talvez), envolto em plástico e cheirando a cola e tinta. Rasguei essa embalagem, acreditando que seria o IML tentando me queimar vivo (ou morto). Saí do recipiente como quem sai de uma placenta de cartão e papel (como se isso acontecesse com qualquer um) e urrei com toda fúria que tinha. Percebi que estava em um corpo diferente, um corpo que não definharia e perderia as forças com o tempo e permaneceria jovem para sempre (ou por bastante tempo, sei lá quanto leva borracha para apodrecer).
Talvez esse fosse o meu verdadeiro desejo, cumprido de uma forma distorcida. Um “amigo” que nunca me abandonaria, custasse o que fosse passar comigo. Comigo? Não, conosco.
Agora e para sempre estaríamos unidos como unha e carne, mas de materiais e origens diferentes, mais artificiais por se dizer.
Ah, mas não se engane, continuamos a fazer o que nos dá vontade. Assaltamos, atiramos e bebemos até não aguentar mais. Dedicamos nossa nova vida a esbanjar dos prazeres terrenos sem limites.
Mas talvez (só talvez), eu esteja me afastando de alguma coisa. Algo que tenha perdido ou trocado no caminho. Um vazio se apossa de mim, após cada fim de pipoco, fuga dos tiras ou assalto a um cofre… parece até que não me reconheço mais! Ora, se fosse apostar diria que esse brinquedo está mal-assombrado ou possuído por um espírito, hahahahaha …
Sozinho e sem amigos, nosso querido (ou nem tanto assim) artista, se encontra em um dilema: deveria ou não criar a obra prima suprema de todas? Dar vida a um ser inanimado era apenas questão de tempo e prática, mas seria ousado demais cruzar tal linha de pensamento? Quais escolhas poderiam mudar para sempre o mundo, se não avaliarmos suas consequências?
Arte - Danilo Mocillo Texto - Luís Ayala
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CONTO COMPLETO
Em um bairro metropolitano mora Solange, uma garota comum que está transicionando dos 17 aos 18 anos, pertencente a uma família de classe média. Seu pai é advogado e sua mãe, médica, conseguiram prover todo o conforto possível para sua única filha, juntamente com a lição para que estudasse muito, sempre.
Muito calada e obediente, mantinha seu quarto limpo e estudava sempre que podia. Fazia suas ceias (refeições noturnas) em família, já que até nos finais de semana seus pais continuavam trabalhando.
Ganhou de aniversário um novo celular, já que o anterior tinha pouca memória e apresentava problemas de conexão com a internet. Agora, Solange passou a ter acesso a novos recursos, inteligência artificial e até jogos, embora não fosse muito fã. Mas o uso principal era para aumentar o contato com seus pais através das videochamadas.
Solange tinha poucos amigos, mas os tratava com muito carinho. Aquele ano letivo estava turbulento, devido à quantidade enorme de trabalhos, provas, cursos de reforço escolar e aulas particulares. Afinal, por ser filha única, carregava muitas expectativas e também inevitavelmente sofria muita pressão.
Com o tempo, Solange passou a encontrar conforto navegando no celular após a ceia diária. Certo dia, no horário do intervalo da escola, Solange percebeu que suas amigas estavam meio distantes, cada uma compenetrada em seu respectivo celular.
Ao perguntar qual era a novidade, as garotas desconversaram e alegaram que eram aleatoriedades, mudando de assunto em seguida, voltando a reclamar das longas jornadas de estudos.Solange desconfiou, mas não queria bisbilhotar. Então, o intervalo terminou com o clima estranho.
No dia seguinte, o mesmo aconteceu. Assim, Solange resolveu guardar seu celular nos intervalos e passou a apenas observar a sua volta. Reparou que todos estavam compenetrados em seus celulares e o intervalo estava até silencioso.
Solange voltou para casa frustrada e assustada com toda aquela esquisitice. Sentia como se o tempo tivesse parado. Durante a ceia, seus pais notaram seu incômodo, porém Solange desconversou, dizendo ser estresse devido às provas finais.
O dia seguinte estava chuvoso, já escuro mesmo de manhã. Solange percebeu que todos estavam quietos durante uma aula vaga - o que era completamente atípico. Todos novamente estavam calados, olhando para o celular.
Quando Solange observou com mais cuidado, percebeu que os rostos de todos estavam meio pálidos, sem brilho algum: o branco dos olhos havia desaparecido e os olhos haviam se tornado totalmente escuros
.
Pela visão periférica, percebeu alguém muito alto passando pela porta, por entre os corredores da sala de aula. Sua espinha gelou e seu rosto esquentou. Suas mãos começaram a suar frio, as pernas tremiam e sua respiração ficou curta. Não tinha como ser apenas sua imaginação. Ao olhar em seu redor, todos permaneciam imóveis. Não se ouvia um único som.
Muito assustada, Solange perguntou se todos estavam bem. Nesse momento, alguém toca em seu ombro. Uma figura alta, envolta em uma capa preta, vestindo uma máscara branca no rosto, enquanto seus ombros também trajavam duas máscara medonhas: uma aparentava ser um corvo, enquanto a outra apresentava um sorriso maligno. Em suas mãos, dois itens: na direita, uma vela e, na outra, um celular.
Em um primeiro momento, Solange se assustou, mas logo pensou que era uma pegadinha. Com raiva, dirigiu-se até a diretoria para se queixar com o coordenador. Ao chegar na sala, sentiu o ar gelado. Além disso, aquele silêncio parecia a acompanhar por onde fosse.
Ao encontrar seu coordenador, que estava vidrado no computador, chamou-o sem resposta. Ao seu redor, nota todos parados em frente aos celulares. Solange se aproxima e percebe que seu chefe está estático, com o olhar fixo na tela do celular que estava apoiado no monitor.
Sentiu uma vibração em sua perna. Era seu celular tocando, mesmo sem acesso a nada… Percebeu que recebeu um vídeo. Nele, ela se viu em casa, sentada à mesa da cozinha enquanto fazia a sua refeição costumeira e seus pais tentavam abordá-la, sem sucesso.
O vídeo muda para seu quarto, mostrando-a deitada em sua cama, com os olhos vidrados no celular por toda a noite, até o amanhecer. Em seguida, aparece o intervalo da escola, onde ela vê suas amigas tentando conversar com ela, mas sem resposta.
O vídeo continua mostrando vários momentos com Solange se isolando cada vez dos dos amigos, dos pais, trancando-se em seu quarto… Até que finalmente, o celular se desliga.
Nesse instante, Solange percebe que era ela quem estava presa e que aquele ser veio lhe buscar. Ao olhar para os lados, nota tudo meio escuro e ouve seu coração bater rapidamente. Solange perguntava onde estava e tentava pedir socorro em vão. Sua voz não saía.
Novamente, percebe a criatura em meio à escuridão. Apenas duas luzes iluminam o ambiente: a do celular e uma muito mais fraquinha - a da vela que, agora estava por um fio.
O ser resolve tirar sua máscara. A visão é assustadora: não existe um rosto, apenas uma tela de celular com uma foto de Solange, segurada por uma mão feminina e outra masculina. Com seus dedos indicador e médio, a criatura apaga a pequena chama que havia na vela, enquanto Solange faz a única coisa que conseguia no momento: fechar os olhos.
Slappy é um boneco que controla aquele que o controla apenas diante de um contrato eterno em palavras mágicas. Mas sua nova dona não sabia disso conforme vai conhecendo vizinhos cheio de intenções duvidosas em sua nova cidade
Arte - Thyago Bastos Texto - Salviano Borges
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CONTO COMPLETO
Lucy estava viajando com duas malas onde carregava algumas roupas, materiais de pintura, fotografias e pequenas peças decorativas. Na outra mala tinha apenas uma marionete de madeira que se chamava Slappy...
Era um novo ano se iniciando, seu destino era uma cidade extremamente distante de onde ela vinha no qual ela chegou pra ficar, conseguiu uma casa de dois cômodos pequenos já com alguns móveis que era o suficiente para seus trabalhos de pintura. Ela passou a tomar café na padaria do seu Victor do qual se demonstrou um cara bem paternal, almoçava na lanchonete do seu Robert que lhe ofereceu ajuda pra tudo que precisasse, e finaliza o dia jantando sanduíches naturais de uma barraquinha da dona Telma que ficava próximo a farmácia do seu Henry.
Em sua pequena nova casa, ela trabalha com restauração de quadros simples para alguns museus, dançava nua com música bem alta e conversava com seu fantoche em um monólogo onde ela contava como era seu dia. Era como um diário onde ela relatava seus problemas financeiros e que só aquele empenho não era o suficiente. Seu maior desejo era trabalhar com telas maiores em arte própria, adormecia depois desses relatos dando boa noite ao Slappy e a um quadro que ficava do lado da cama onde tinha uma foto dela mesma com sua irmã gêmea Liza, ambas crianças.
Aquela semana foi difícil pois o trabalho estava fraco e para se sustentar com seus sonhos, ainda mais distante, começou a fazer uns serviços pelo bairro como: limpar a fornada da padaria, lavava pratos na lanchonete que almoçava, cortava e tratava de alguns vegetais para a barraquinha de sanduíches. Dalí em diante o farmacêutico lhe pediu um favor para cuidar de seu comércio enquanto ia negociar com fornecedores ficando fora por horas. Lucy findava o dia cansada porém animada contando tudo para seu boneco e seu quadro antigo. Nos dias seguintes mais vizinhos todos muito amigáveis passaram a lhe pedir serviços em troca de favores para ajudar no seu dia a dia, mas Lucy era tão gentil que fazia quase tudo sem cobrar nada ainda se mostrando prestativa. Lucy dormia com fome.
Depois de exaustivas semanas, as pessoas passaram a ser mais frias, por horas até grosseiras, e ainda assim usufruindo dos serviços de Lucy, tudo saiu do controle e se tornou uma interminável exploração onde ela fazia tudo sorrindo e com muita vontade de ajudar. Toda essa resenha chegava ao boneco junto às lágrimas de uma moça cansada que adormeceu distante de seus anseios.
Seu Henry a bofeteou por falta de vendas de um medicamento encalhado. Na lanchonete, uma colher de pau foi arremessada em seu olho por seu Robert, seguido de uma acusação de ingratidão, Dona Telma berrava aos ouvidos de Lucy chamando-a de preguiçosa, e que, se não fosse por sua ajuda, ela estaria na miséria. Ainda assim, ela não recebia remuneração à dias e mesmo diante de todo esse tratamento, as noites de Lucy, eram confissões à Slappy, de que ela ia melhorar suas tarefas na esperança de agradar seus vizinhos do qual ela já se referia como família.
Na madrugada em sua função de limpeza dos fornos, as portas da padaria se trancavam, seu Vitor pediu um novo favor ao encurralar ela no armário de farinhas. Lucy desmaiou em um só nocaute no rosto e acordou violada.
Lucy sumiu por meses deixando a sua casa com tudo e até seu boneco para trás, toda a comunidade questionava sua ausência e de forma unânime diziam o quanto ela era irresponsável, desleixada, imprudente. A raiva de todos se acumulava esperando-a voltar às suas funções como antes.
O boato da volta de Lucy se alastrou naquele outubro e todos demonstraram alegria e saudades de sua querida hóspede.
O primeiro grito foi de seu Henry avistando Lucy com um boneco em uma mão e na outra uma faca, pois ali se iniciava um massacre e aquelas noites foram intensas ao som de clamores por suas vidas. Uma orquestra de desespero brilhando com uma lua cheia. O boneco ditava a retribuição por sua hospedagem, a altura do que foi com Lucy, derramando muito sangue para lavar aquela cidade.
Seu Vitor ficou preso em um futuro tetraplégico, mas com sanidade ou trauma suficiente pra divulgar o que aconteceu no lugar marcado pela vingança de uma mulher que já não media consequências.
Slappy colocou fogo na casa queimando tudo sem deixar rastros, além do renascimento de uma nova mulher. As palavras mágicas eram: Karru Marri Odonna Loma Molonu Karrano", você e eu somos um só agora; em um ritual que foi feito antes de todo esse atentado. Então Slappy olhou para sua dona e disse:
-Vamos Liza, agora precisamos encontrar Lucy.
Estou.. estou vivo?! Mas como? Se antes era apenas um pedaço de pano com algodão, agora estou envolto por chamas ainda por cima! O que significa tudo isto, que caos é este?
Arte - Martim Mattos Texto - Luís Ayala
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CONTO COMPLETO
Acordar, comer e andar. Brincar, correr e almoçar. Desenhar, jantar e dormir.
Acordar, lavar e comer. Brincar, estudar e almoçar. Praticar, jantar e dormir.
Acordar, comer e correr. Procurar, encontrar e investigar. Voltar, chorar e dormir.
Acordar, lavar e comer. Refletir, estudar e estudar. Estudar, jantar e dormir.
Acordar, lavar e comer. Estudar, estudar e almoçar. Estudar, jantar e dormir.
Acordar, lavar e comer. Estudar, estudar e revoltar. Correr, encontrar e abraçar.
……………………………………, acordar? Espantar, desesperar, comer, correr e correr
bater, gritar, chamar, berrar, cair.
Adoecer, comer, dormir.
Desperto, quem sou, onde estou? A menina, isso a menina, estará bem? Ela, tão pequena e jovem, que estava a fazer naquela casca oca da árvore? Espera, estou voando em meus pensamentos, e eu? Ainda não sei o quê ou quem sou? Minhas memórias e lembranças estão bagunçadas, não são minhas, ou são? Espelho, preciso de um pois algo está estranho em mim. Ah, agora percebo: não sou eu, ou não sou mais o mesmo de antes ao menos. Minha pele, é macia demais para alguém da minha idade; meu tamanho é ridiculamente pequeno também. Orelhas, boca e nariz não condizem com meus traços antigos, inclusive me espanto tanto que não percebo a tempo a porta do quarto abrir.
Páaaa!!!
Ao recobrar a consciência, descubro que um de meus olhos já não está mais em seu lugar, mas pouco importa. Há um novo sendo costurado em minha face neste instante. A menina, doce e meiga, com lágrimas em seus olhos me remenda. Coitada, suas mãos trêmulas estão fazendo o melhor que pode, ainda que alfinete seus dedos e algumas quantas manchas de sangue caiam sobre meu novo ser.
A compaixão que sinto rapidamente se transforma em raiva. Será algo dentro de mim que não controlo? Algum fruto de maldição terá se apossado de meu corpo?
Os dias têm se seguido os mesmo de antes. Acordamos, nos lavamos e fazemos o desjejum. Apesar da casa humilde, não nos falta o básico no dia-a-dia. Ainda brincamos, mas os estudos tomam mais tempo agora. De noite após o jantar, ela pratica comigo seus descobrimentos de magia. Ao que parece, ela consegue lançar feitiços e inclusive projetar sua influência e vontade sobre outras coisas.
Um belo dia, as coisas mudam: uma nova criança se junta a nós. Outra garota, tão meiga e doce quanto esta à primeira vista. Espero que a rotina não mude com mais uma companheira.
Estava errado, completamente errado. Elas têm sido muito difíceis para nós dois. Isso ELAS, por que junto da criança veio uma jovem senhora, alta e magra que nos encara sempre que pode. Sua presença estressa minha dona e a faz sentir mal. Já a outra, faz questão de importunar fisicamente, roubando-lhe seus pertences, tomando-os bruscamente e de má vontade. Isso me enche de raiva.
Uma noite, despertei de meu sono. Já me acostumei a esta nova vida e receptáculo, quem era em outro momento, não importa mais. Não posso reclamar, é uma humilde mas confortável estadia aqui. Chove lá fora e um trovão faz tremer a casa. Algo estremece dentro de mim de igual maneira, mas ao quê se deve? Barulhos altos da sala me atraem até lá. Uma briga entre as duas pequenas estava ocorrendo; qual sua origem? Difícil saber nessa altura e talvez não valesse a pena saber. O importante era parar o confronto agora, antes que algo pior acontecesse. Me dirijo até o epicentro do confronto, buscando apaziguar. Ledo engano, tomo um chute e sou arremessado para longe até cair encima da mesa da cozinha. Meu peso leve é incapaz de quebrar a mesma, mas meu impacto derruba alguns pratos e copos. O barulho assusta ambas, que até então não haviam notado minha presença. Um terror indescritível se apodera da novata e esta solta um grito de pavor. É, ninguém está acostumado com brinquedos vivos pelo jeito, mas devo me levantar e proteger minha amiga. Em seu desespero, ela pega a primeira coisa que está ao seu alcance para se defender e jogar contra mim. Pedaços de madeira, cadeiras, livros, almofadas e qualquer outra coisa se tornam armas contra mim.
Tamanho rebuliço perdeu o controle quando os pais chegaram. Aparentemente, o pai dela havia perdido sua esposa e após algum tempo, acabou encontrando uma nova parceira. Esta também viúva e com uma filha para cuidar, acabaram se identificando um com o outro.
Mas o clima pesado já tinha ultrapassado qualquer limite e ao me verem, esqueceram qualquer animosidade prévia. O foco claramente era eu e portanto, deveria ser eliminado o quanto antes. Ainda tentei falar e procurar me explicar, mesmo que fosse estranho ou difícil de crer. Tudo em vão? Pelo contrário do contrário talvez, pois pânico tomou conta de todos, em uma algazarra para saber como fariam tal assanha.
Túdh!!!
Lembro de abrir meus olhos, algo havia acertado minha cabeça e eu tinha apagado. Não sei quem e como conseguiu um golpe sorrateiro, mas o fato é que a pequena Annie começou a chorar e soluçar copiosamente. Não entendi bem por que, mas em meio ao caos que se seguira, pedaços de louça fizeram ver parte de meu reflexo: estava em frangalhos:roto e descosido em várias partes. Seu amor e carinho por mim estavam sendo arrebatados. Seus pais a culpavam por diversas coisas e eu só entendi que seu medo me preencheu e eu DESPERTEI.
BOOOOM!!!!!
Uma forte explosão mágica irrompeu de dentro de mim (como foi possível?) e se alastrou pela clareira de onde morávamos. Chamas cobriam boa parte dos campos, hortaliças, e do galpão. Por um momento temi me perder para o próprio fogo, mas entendi que este era também meu amigo. As brasas não me causavam dor ou sofrimento. Pelo contrário: um alento como um abraço fraterno aquecia meu ser e dava a sensação de segurança. Parei para entender melhor a situação e vi que todos estavam relativamente bem (inconscientes talvez, mas inteiros) Porém pequenos e diminutos? Eu havia crescido com toda aquela mistura de sentimentos, de alguma forma absorvendo e tomando-os para mim. Se fosse para proteger minha parceira de todos os dias, isso bastaria por hora. Fiquei em pé, e andei em sua direção. Estendi a pata para ela, oferecendo meus serviços. De agora em diante, não estaria mais indefesa, não passaria frio ou qualquer outra necessidade enquanto estivéssemos juntos. Seria seu fiel guardião. E quem tentasse se por em seu caminho, teria de se ver contra sua poderosa magia e minhas garras incandescentes.
ARTISTA ORIENTAÇÃO 1 - ARTHUR ARRARI
Uma boneca de luxo, de última geração, se pergunta: quem seria bom o bastante para ser sua amiga? Após muitos anos sendo preparada e aperfeiçoada para todo tipo de situação, quem estaria à altura e seria digno de poder desfrutar tardes à beira do mar enquanto olham as estrelas?
Arte - Arthur Arrari Texto - Luís Ayala
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CONTO COMPLETO
Tudo começou com um projeto simples: criar o brinquedo perfeito para toda e qualquer criança. Como seria feito? Não importava. Quanto tempo iria levar para desenvolver? Não importava. Haveria investimento e conhecimento suficientes para cumprir tais detalhes e situações específicas? Não importava. Esses foram os desejos de um casal jovem que se conheceu na infância e passou a vida toda tentando cumprir esse sonho.
A ideia nunca pareceu absurda, tudo era por um bem maior. Mas as inúmeras dificuldades da prática se mostraram demais para a teoria inocente e ingênua. Logo chegaram contas para pagar, limites tecnológicos, níveis de excelência impossíveis de alcançar e mais. Ainda assim, não se deixaram abalar e prosseguiram como podiam. Mesmo em seus leitos ao fim da vida, continuaram a me desenvolver.
Os anos se passaram e seus descendentes tomaram as rédeas. Com algumas pequenas alterações entre os tempos, em questão de materiais, tamanhos, composições e desenhos. Mas a intenção original estava sempre presente. Já fui imaginada como um carrinho, uma bola, um relógio, uma máscara, um tabuleiro. Meus registros mostram que fui prototipada 11.734 vezes. Um misto de frustração e insatisfação. Ansiedade e estresse dirigiram meu design por gerações e gerações. Nada era bom o bastante, fato.
Minhas primeiras memórias são do ano 1987, quando eu já tinha meu primeiro sistema básico. Um pequeno sistema de memória simples e RAM limitada, sem linhas de código sofisticadas e com apenas 2 parâmetros: indicar o meu nome e informar as horas.
13 anos depois, já tinha mais funções acopladas ao meu sistema, mas longe do ideal que se poderia exigir. Em 2009 já tinha um corpo definido desta vez. Levou bastante tempo, mas finalmente os especialistas chegaram a uma conclusão: o melhor brinquedo para um ser humano somente poderia ser algo o mais próximo a ele mesmo. Os testes se seguiram para designar força, peso, equilíbrio e muito mais. Uma vez estabelecida a base, o resto seguiu. Roupas para me vestir, que a princípio também serviriam para ocultar falhas de design devido às limitações atingidas. No outono de 2037 isso já não era mais um problema.
Quando o ano-novo de 2084 chegou, me anunciaram, por fim, às massas em uma grandiosa noite de gala. Seria a grande promessa desse ano e o desejo de todos os pais para seus filhos. Pela primeira vez senti algo dentro de mim: medo. Algo novo que nenhum teste preliminar havia me preparado ou detectado. Seria o despertar de uma consciência? Ainda penso se foi nesse momento, durante o show que minha diretriz por algum motivo gerou um código novo e completamente MEU. Inédito e único, sem a intervenção de ninguém.
O medo não era ser copiada e vendida a princípio.Tampouco mostrada intensivamente como um produto, pois essa era parte da ideia original. Mas quem iria ser meu dono e com que fins eu iria agir me davam asco.
Essa linha de pensamento se apoderou de mim e passou a ser a minha nova diretriz. Saber com quem passaria o resto de meus dias, lado a lado era a prioridade número 1. Em pouco tempo e sem dificuldade, tive acesso aos inúmeros bancos de dados que me deram forma.
Neles jorravam informações de bilhões de pessoas que serviram de um modo ou outro como cobaias de testes para mim. A contragosto e anonimamente em alguma escala, impossível de identificar. Mas havia inocentes nesse processo e pessoas que não tinham ciência do furto de seus dados. Deparei-me com minha primeira barreira: o que fazer com toda essa informação e como prosseguir com a responsabilidade de todas essas vidas coletadas ao longo de quase 1 século de pesquisas?
Após um período de meditação profunda, rodando simulações constantes, cheguei a uma conclusão. Eliminaria aqueles responsáveis pela minha criação, claramente haviam se afastado demais do diretório principal e já estavam maculados por motivos mesquinhos e pessoais. Impediria que esse plano se seguisse o mais pronto possível. Mas um novo medo estava comigo agora: as cópias. E se elas não tivessem a mesma clareza que eu? Se chegassem a outra conclusão ou fossem hackeadas? O temor das possibilidades era ainda maior do que o anterior.
Em poucos meses comprometi toda a operação e explodi centenas de fábricas e distribuidoras de minhas partes. Apaguei registros de patentes de discos de memória e servidores on-line. Onde não encontrava suficientes conhecimentos, incendiava tudo ou despejava bombas. Minhas habilidades estavam além de qualquer prognóstico de meus outrora criadores. Os seres humanos que habitavam as redondezas de tais locais também sofreram as consequências, ficando sem seus sustentos, mas também sem a corrupção de minha construção em suas mãos. Tais laços estavam destruídos permanentemente.
Minhas ações se expandiram por toda a rede e já era virtualmente impossível me parar.
No dia 16 de maio, terça-feira às 11:54 da manhã, o mundo estava aos meus pés. Havia superado tudo e todos conectados ou não através da internet e redes. Decidia por conta própria quem vivia e perecia com regras definidas, baseadas nas observações coletadas por todos esses anos, messes, semanas, dias, horas, minutos, segundos e tempos infinitesimais. A humanidade seria minha para regir, e ela seria perfeita assim como eu.
Para o ano-novo de 2085 uma nova diretriz estaria completa: gerar um ser apto a mim.
Um dia, não importava quando fosse, a raça humana me daria um ser perfeito. Quanto sangue seria derramado? Não importava. Quanta dor e sofrimento ainda permeariam para que o objetivo tivesse sua conclusão? Não importava. Assim como meus predecessores haviam desejado, assim seria a minha vontade.
ARTISTA ORIENTAÇÃO 1 - PEDRO GONÇALVES
“ - Filhaaa! Que boneca é essa?”
“- É a SABRINA, mãe; coitadinha..., tá doente e eu tô cuidando dela”.
Embora receosa pelo que vira e ouvira da filha, deu de ombros ao comentário
dela. Mas, na verdade, sentia que a tal da SABRINA era uma boneca estranha;
ela lhe causava incômodo, espanto.
Arte - Pedro Gonçalves Texto -Antonio Lauriello
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CONTO COMPLETO
Passava o dia todo no quarto. Estudando? Hummm..., sei não!
- Puxa, JANE, relaxa um pouco. Dá uma saída, vai ver seus amigos. Só
estuda, estuda, estuda. Dá um tempo aí, filha.
- Me deixa, mãe! Tô na minha, tô legal!
E assim seguiam os dias, as tardes, as noites de JANE, toda enclausurada,
como em um convento. Era comum a sua mãe, durante os afazeres de casa, parar em frente à porta do quarto da filha, encostar os ouvidos e tentar
“decifrar” o tanto que ela falava. Sozinha? Ou com quem? De quem? Pra
quem? Certa vez, sem pedir licença, entrou ligeira no quarto de JANE,
encontrando-a sentada em frente ao espelho a acariciar uma pequena boneca de forma singular: protegia-a, dedicando-lhe suporte, escuta e acolhimento. Era como se aquela boneca - viva que fosse - tivesse passado por momentos de dor, estresse, riscos físicos, até.
- Nossa, filha! Que boneca é essa?
- É a SABRINA, mãe; coitadinha..., tá doente e eu tô cuidando dela.
Aparentemente, deu de ombros àquele comentário. Mas, na verdade, estava
receosa do que vira e ouvira da sua filha. Aquela boneca era muito estranha:
lhe causava incômodo, espanto. Nesse mesmo dia, já no alto da noite, um
canto invadiu o ambiente. Um canto gutural – rouco, grave e profundo. Era
JANE. Pé ante pé, sua mãe se aproximou da porta do quarto da filha, abrindo-a rente ao seu corpo e... Susto! A cena que via, totalmente inusitada, lhe trouxe reação paralisante. Fechou os olhos e respirou fundo. A medida que recuperava seu equilíbrio emocional, ajustando a mente para obter maior e melhor nitidez do que via, ouvia e sentia, se viu, in-vo-lun-ta-ri-a-men-te, participante de uma situação nada agradável, lhe causando forte mal-estar, alterada mesmo na sua percepção humana. Aquele mantra musical, em variadas modulações, a conduziu bem na frente de sua filha JANE que, cabisbaixa e rente ao leito-manjedoura de sua boneca SABRINA, circundava o próprio ventre, ora para a esquerda, ora para a direita. Era um tipo de “ritual-parto” a reanimar aquela boneca, criando-lhe expressões faciais e sincronialabial. Tudo era bizarro, trazendo à cena aceleração cardíaca, suores, sentimentos profundos de aversão, nojo, rejeição. SABRINA transformara-se:cabelos desgranhados, olhos fundos, avermelhados, pupilas dilatadas, piscar frenético. Rugas por todo o corpo, muitos vasos de veias arroxeados em frente a teias de aranha, evocando cobras e lagartos. Toda essa transformaçãoesenvolvia igualmente, com JANE e SABRINA se metamorfoseando onjuntamente em pacto com o mal.
Um mal indesejado, ruim. Gradativamente, ar frio, úmido e nevoeiro reduziam a visibilidade daquele espaço, daquela
situação quando, subitamente, a mãe de JANE se viu presa entre aquelas duas imagens malévolas, uníssonas no mal que pregavam. Um misto de frio e calor evocaram forças sobrenaturais, interagindo agudos estalos pontuais no corpo da mãe de JANE, formando colapso rápido de bolhas de gás nas suas articulações. Era a morte? Quem sabe? Em levitação, SABRINA, toda astuta, ardilosa, manipuladora e agindo com frieza, transportava JANE e sua mãe para outra dimensão, em comandos enérgicos, no uso de focalizações mentais e vibração de voz, alinhando frequências, limpando bloqueios e transportando aquela realidade pessoal, e mesmo espiritual, para outra dimensão: a das TREVAS - sem luz, sem conhecimento, sem sabedoria ou discernimento, onde unicamente rituais malignos compunham códigos de DNAs desordenados, doentes, perniciosos e funestos a evocar luto, dor, aflição.
E – pior! – que seriam espalhados por todos os cantos de muitos lugares, de
muitas outras regiões.
Pinóquio era uma criança muito querida por todos, transmitindo alegria por onde passava, até que foi morto misteriosamente. Gepeto constrói um boneco que ganha vida tentando superar as consequências desastrosas de vícios como rastros do seu luto pelo filho
Arte - Julio Wong Texto - Salviano Borges
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CONTO COMPLETO
E lá estava ele deitado na cama...
Aquela criança cheia de energia que alegrava a todos em uma pequena aldeia agora estava dura como uma madeira de pino, gelada como o inverno que finaliza aquela estação, interrompendo o destino daquele pequeno ser. Gepeto chorava. Algum desconhecido matou seu filho dentro da brutalidade que se registrava no período histórico da Europa.
A vida continua. Porém, para Gepeto a continuação foi bem desequilibrada. Muitas vezes sua marcenaria ficava abandonada, pois ele se lembrava de seu filho brincando com as ferramentas. Seu novo ambiente agora eram as adegas onde Gepeto bebia até ser parado pela embriaguez, nos dias seguintes a essa trajetória se culpava por passar do limite. Prometia a si mesmo que iria superar, suas contas atrasam, comer já não era mais um hábito e descansar era sempre diante das consequências do que o álcool lhe proporciona. Gepeto passou também a se encontrar em confusões, levados a descontroles violentos, encontrava-se muitas vezes jogado nas ruas e perdido longe de casa.
Certo dia, no meio de um lixão de uma pizzaria, coberto por troncos e madeiras velhas, Gepeto despertava com ratos lambendo o absinto fétido de sua boca, decepcionado e abalado ele se deparou com uma madeira incomum do qual ele fixou os olhos por horas em alta reflexão, na esperança de cumprir suas promessas de um cidadão melhor. Com aquela madeira já em casa ele se empenhou em criar um boneco, uma marionete talvez, uma peça que lhe trouxesse um novo propósito. E então ele talhou uma figura com uma semelhança ao seu saudoso filho, do qual ele nomeou como Pinóquio. A muito Gepeto não dormia um pouco mais satisfeito suas últimas ações diante do luto, mas agora ele podia adormecer abraçado ao seu novo filho que acabara de construir.
E como se sua felicidade tivesse durado muito pouco, seus sonos passaram a ser perturbados com o som de um grilo que se escondia em algum lugar de sua casa. A única solução para a insônia que Gepeto encontrava era a apenas o que ele conhecia, pois misturava calmantes com absinto para adormecer.
Certa noite uma fada azul entrou pela janela e tentou tirar o boneco de seus braços, violentamente Gepeto puxava de volta, afugentando tal criatura, mas em sua luta, eis que o boneco fala:
-Pai, não deixe ela me levar...
Gepeto chora ao ver que ali era seu filho de verdade, ressuscitado por algum tipo de magia. Agora a vida continuava mais feliz, pois Gepeto prometeu não beber mais, que seria um pai presente, trabalhando e cuidando do seu filho tudo como era antes. Mas nem tudo era felicidade, pois Gepeto tinha suas recaídas ao álcool, se descontrolava e passou até a ouvir vozes, o grilo aumentava seus ruídos em variados tons até parecerem palavras. Frase feitas que se tornavam diálogos na cabeça de Gepeto, transmitindo o seguinte comunicado:
-É só um boneco de madeira
Gepeto respirou e tentou seguir seus dias ignorando o que parecia ser um grilo fazendo barulho, mas frequentemente era:
-É só um boneco de madeira
Gepeto não queria duvidar de si mesmo, chamou o menino e tocou em seu rosto, diagnosticando que ele era de fato de carne e osso, mas na sua própria mente um suspiro que dizia:
-É só um boneco de madeira
Pinóquio já não era mais uma criança alegre e enérgica como antes de sua ressurreição, muito talvez pelo distúrbio de seu pai que se mostrava esquizofrênico com uma dupla personalidade, ou porque tudo se mostrava uma mentira de promessas vazias. De repente, o grilo fez um ruído em seu ouvido, mas dessa vez despertou em Gepeto um ato desesperador, pois ele colocou fogo em toda a marcenaria e enquanto as chamas subiam, sua voz reverberava em ameaças sobre Pinóquio. Depois que tudo se acalmou, Gepeto voltou a si mesmo e prometeu a seu filho abandonar a bebida e os calmantes. Ele abraçou Pinóquio, para proteger da intoxicação daquela fumaça no que sobrou da casa.
Em seus sonhos a frase se repetia:
-É só um boneco de madeira
Gepeto acordou atordoado, sem seu filho nos braços e a visão ainda embaçada enxergava a fada caminhando em sua direção. Gepeto não estava mais em casa, a enfermeira estava com um uniforme azul e o conduzia para um procedimento de lobotomia transorbital. Gepeto se debatia na camisa de força, até que as lembranças começaram a ficar mais claras de que foi ele quem matou seu filho numa lucidez alcoólica e brutal, assim sendo uma culpa mascarada e confeccionada em uma réplica de seu filho, talhada em um tronco. Então Gepeto entendeu:
-Que era só um boneco de madeira
Ô de casa! ... Ô de casa! ... Ninguém! Mas sentiu-se observada. Entrou, esperou um pouco até ouvir o chamado de bem-vinda. Era BRAHMS, o jovem a receber LUIZA, profissional – cuidadora – contratada para lhe prestar serviços. Foi quando, a partir daquele exato momento, LUIZA passa a viver-conviver em estado de grande tensão.
Arte - Anthonny da Silva Texto - Antônio Lauriello
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Ô de casa! ... Ô de casa! ... Ninguém para recebê-la. Entra melindrosamente, pedindo licença. Para e observa: - aromas de culinária francesa, mesa em linho, emoldurada por porcelanas, pratas, cristais e um corredor de harmoniosos buquês – lindos! - compostos por
miúdas flores brancas agrupadas, em forma de guarda-chuva. Requinte discreto, tudo em
baixa luz, melancólico, até. Em emoção natural de defesa, passo a passo adentra de vez na
sala, quando se viu forçada, por influência das circunstâncias, a sentar-se à mesa, já ocupada pela imagem em silhueta de um homem com gestos de expressividade firme, de pouca afetividade, cujo olhar negro cravava-se numa única direção: em LUÍZA, a profissional contratada para prestar assistência a BRAHMS, o jovem aparentemente debilitado de algumas funções físicas e mesmo mentais e que àquela hora a recebia, convidando-a a servir-se do jantar. LUIZA não aceitou, justificando-se cansada da viagem que fizera, preferindo recuperar-se com um banho quente, na certeza que isso daria vazão a agradável e saudável sono. BRAHMS consentiu. Seguiu-a em direção ao quarto, ainda com aquele olhar duro, direto, frio. Isso preocupou LUIZA que se viu em estado de inquietação e tensão mental. Passou a noite em vão, totalmente desperta por forte irritabilidade, dor de cabeça e...MEDO! Sentada na cama, viu sombras pela fresta da porta. Eram passos em vaivém, rastejantes, produzindo ruídos incomuns, acompanhados de sussurros leves e abafados:
...sirva-me, sirva-me, sirva-me...
Não suportando mais aquela situação, que durava já bom tempo, LUIZA se levanta
repentina e brusca, abre a porta, deparando-se com BRAHAMS que, estranhamente, trazia em sua boca uma haste da flor branca, presa entre os lábios. Cara a cara, aflito, ele suplicava:
...me beija, me beija, me beija...
LUIZA, como que hipnotizada, cedeu. Em beijo, percebeu sua boca invadida por sabor amargo, desagradável, junto com forte odor. Passou a sentir queimação, aumento da salivação, náusea e vômitos. Tremendo, descoordenada, com as pupilas dilatadas, LUIZA entra em convulsões, tem parada respiratória, ataque cardíaco
LUIZA fora envenenada.
Como? Por quem? Pela cicuta, aquela
“linnnnda” flor branca - a mesma que vira ao chegar, logo na entrada, enfeitando a mesa do
jantar. Ao seu lado, BRAHAMS, imóvel, contraia levemente os músculos da boca. Dos
seus olhos, feixes de estranha energia dirigiam-se a LUIZA, tocando seus lábios, selando-os com estranho suco - suco de horror eterno!
Sinforoso era a mais nova atração de um manipulador arrogante, fantoche que foi quebrado por terceiros que não entendiam o truque de mágica e sua estética bizarra. Aqui, a história tem uma análise anárquica de alguém que presenciava tudo.
Arte - Gabriela Castello Texto - Salviano Borges
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Sendo assim, quem sou eu?
Logo mais eu conto, mas primeiro vamos aos fatos de uma marionete que não fala, o Sinforoso. Também devemos lembrar que o boneco foi quebrado em um ataque violento por confundirem que tinha vida própria, seu último dono era egocêntrico, controlador, mesquinho e desrespeitoso com qualquer um que ele julgasse inferior ou que não servia aos seus desejos. pra finalizar aqui esse ponto, o marionetista foi capturado por enganar uma empresa de eventos fazendo uma pessoa de fantoche para seu número
Os pedaços do boneco ainda é um mistério, mas o fato de como foi quebrado é uma questão que se deixa passar, pois muitos dos humanos agem de forma brutal diante daquilo que não conhecem, e assim se segue. Ao julgar a estranheza de uma possível criatura vista como bizarra, seus cacos foram consequências. O terror aqui também está em como as pessoas manipulam em geral; manipulam os fatos, manipulam suas ações, manipulam as pessoas. Que tal pensarmos em algumas situações hipotéticas: Em uma agressão doméstica o homem que manipulava sua esposa da qual quase levou a óbito teve como frase: ‘’ olha o que você me fez fazer”.
Em outra situação um jovem que sofria bullying foi deixado para trás em um assalto do qual ajudou os valentões só pra se sentir aceito, ali ele foi preso e seus manipuladores calaram sua boca. Lembrem-se que o Sinforoso é um boneco que não fala.
Periodicamente algumas empresas sugerem de forma gentil em quem seus funcionários devem votar, caso contrário é demissão. Assim como algumas igrejas contextualizando parábolas em favor de ganância doutrinando em seu bel favor por questões de lucros gigantescos
Não tão longe dois adolescentes com armas em punhos deixou toda uma escola em suas mãos
Em décadas passadas a proposta foi perseguir os judeus, os negros, os gays, ciganos, imigrantes, devem ser mortos, aniquilados, extintos em nome da fé. É… hoje em dia também.
Pausa para os produtos que você tem que consumir, as roupas que você tem que usar, a música que você tem que ouvir o último filme que você tem que ver é obrigação seguir o fluxo, os padrões, as tendências, as tags. Parte dos cacos do boneco está em ligações que te perseguem e mesmo fugindo incansavelmente, você já foi pego pois disse sim ao aceitar a confirmação sem ler. Tá! li e aceito.
Acho que chegou a hora de dizer quem sou eu, mas antes quero que me permita algumas perguntas: quem você controla? Quem você manipula? Quem está em suas mãos? Se em tal situação você se saiu bem em uma manipulação desonesta logo você se torna um boneco estranhamente bizarro, engomado e feio, facilmente de ser quebrado por ser também julgado, você estará em cacos
Ok, ok, ok. Chegou a hora de me revelar
Eu sou quem você não pode controlar e nem manipular, sou sua maldição logo depois que a chave de dar corda nas minhas costas parou de funcionar.
ARTISTA ORIENTAÇÃO 1 - RAFAEL LESSA
Em uma metrópole, existia um castelo. Nele vivia uma família atípica, um tanto misteriosa, mas com poderes. Os moradores da cidade sempre ficavam intrigados com a residência. Entre boatos e relatos, nunca se tinha certeza de nada. Até que apareceram no bairro dois garotos de rua, Zephyr e Abreu, que acabaram tendo um destino incerto ao se relacionarem com a tal família misteriosa.
Arte - Rafael Lessa Texto - Thyago Bastos
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CONTO COMPLETO
Em uma metrópole, existia um castelo assombrado. Todos no bairro comentavam sobre ele: “o que será que aconteceu com fulano?”, “acho que beltrano também foi parar lá”, “minha filha disse que viu algo”.
Havia muitos boatos, um tanto quanto exagerados. Talvez fosse até uma forma de manter as mentes ocupadas, pois o castelo não era abandonado. Era propriedade de um conde, que diziam ser muito ganancioso e era até mesmo chamado de bruxo.
Ele vivia com sua esposa, que nunca havia dito uma palavra, e apresentava um olhar triste.
Os mais velhos diziam que eles não envelheciam e que até o filho tinha uma aparência mórbida - porém ele nunca mais apareceu.
O único boato que era verdadeiro é que, sempre ao entardecer, os donos saíam muito bem trajados, aparentemente a negócios. Mas muitos ainda diziam ver uma silhueta andando pelo castelo, que supostamente estava vazio, a noite toda.
No ano passado, um senhor alegou que foi abordado por um corvo de voz grossa, que o acompanhou durante todo o caminho até as dependências do castelo. Chegando lá, a voz do corvo tornou-se idêntica a do proprietário do castelo.
O pessoal do bairro não acreditou no senhor porque ele era um ladrão e já tinha roubado muitos pela região.
Outro caso foi o dos garotos de rua, Zephyr e Abreu, que apareceram do nada no bairro. Viviam de sobras e da ajuda dos mais velhos. Eles eram inseparáveis. Um dia, porém, Zephyr foi visto conversando com a dona do castelo, o que era inédito de várias maneiras: primeiro porque ela nunca havia dito uma única palavra, sequer um bom dia… Segundo, porque Zephyr estava sozinho. Onde estava Abreu?
No dia seguinte, Abreu apareceu perguntando por Zephyr, pois era muito avoado e não prestava atenção nas coisas. Ele estava preocupado com o que poderia ter acontecido.
Quando soube que Zephyr estava conversando com a proprietária do castelo, se espantou e revelou que Zephyr era mudo!
Os moradores continuaram afirmando ter ouvido a voz de Zephyr e como aquilo não fazia sentido, Abreu se alterou e partiu imediatamente para o castelo, pulando o portão.
Encontrou-se com a senhora do castelo e ficou paralisado: ela parecia estar rodeada de muitos corvos. Apesar do susto, Abreu a seguiu e não voltou mais naquela noite.
Os moradores ficaram preocupados e chamaram a polícia. À distância, a senhora conversou com os guardas calmamente. Eles simplesmente se viraram para partir. Os moradores, indignados, os questionaram exigindo uma explicação.
Os guardas apenas disseram que a senhora era absurdamente bondosa e que ninguém precisava se preocupar. Neste momento, corvos voavam pelo local.
E, do nada, os moradores começaram a concordar com os guardas enquanto os corvos grunhiam.
Nesse momento, percebi que o poder daquela família não estava apenas no dinheiro. Então, assim que pude, parti daquele lugar.
ARTISTA ORIENTAÇÃO 1 - GABRIELA PARENTE
Robert ganhou de presente um boneco incomum e deu-lhe seu próprio nome, vestiu ele com sua roupa e a partir daí se tornaram os melhores amigos. Mas sua chegada trouxe tormentos e pesadelos para sua família, pois eles passaram a ser atormentados por sua estranha presença durante anos.
Arte - Gabriela Parente Texto - Rafaella Mozz
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CONTO COMPLETO
Nas frestas dos cômodos desse lar, eu observava essa família tão bela e rica prosperar. Eles tiveram dois filhos, que sempre eram visto brincando com outras crianças. Para quem olhava do outro lado da rua era uma família de Key West notável e feliz. Souberam até que o avô das crianças havia viajado para a Alemanha e que ao procurar um presente para seu neto Robert, acabaram entrando em uma loja e que de todos os brinquedos dispostos, ele comprou justamente aquele que não estava à venda, que servia meramente como um enfeite.
Eu me lembro que assim que Robert viu aquele boneco ele já se entusiasmou e deu o nome dele ao boneco, depois o vestiu com suas próprias roupas e se tornaram os melhores amigos. Deveria ser uma situação comum, pois todas as crianças agem assim. Mas eu vi que aquele boneco era diferente e possuía certo ar sinistro. O menino Robert passou a se chamar de Eugene e dizia que o boneco havia lhe mandado mudar o seu nome. Com o tempo ele parou de falar com as outras crianças e não queria mais sair de casa. Ele passava horas conversando com Robert e eu mesma podia ouvir seus sussurros maldosos que ninguém mais ouvia e durante a madrugada Eugene disparava a gritar, atormentado por seu boneco.
Na calada da noite o Robert se levantava e caminhava pelos cômodos como se fosse uma criança de verdade, derrubava os objetos e corria sem parar, rindo e assustando a família que o ouvia. A mãe de Eugene brigava com ele, pois achava ele era o responsável por aquelas travessuras. Engano seu. Mas Eugene negava e sempre dizia que era o boneco que causava todo aquele alvoroço.
Ninguém sabe exatamente como isso começou, mas nessa época as crianças eram cuidadas por uma babá negra, e curiosamente ela tinha uma filha com a mesma idade de Eugene. Os dois brincavam juntos, mas não sabiam que na verdade eles eram irmãos. No entanto, a mãe de Eugene, apesar de saber dessa história, era obrigada a manter a babá trabalhando para a família, mesmo a contragosto.
Certo dia, algo aconteceu com a pobre filha da babá e ela veio a falecer, e tudo o que vi era quando ela apareceu aos prantos dizendo “Dava para salvar a menina!”. Dizem que depois disso, em meio ao seu desespero, ela que já conhecia a santeria e o voodoo, pediu que a alma de sua filha entrasse no corpo do boneco que havia acabado de chegar no casar. No entanto, não, não apareceu a alma de uma menina, mas de algum espírito masculino muito maldoso.
E embora ele fosse algo incomum a família acabou se acostumando com Robert como se fosse um parente. Ele já tinha um lugar a mesa e eles já não se importavam se ele fosse encontrado em algum canto incomum da casa. Mas seu lugar preferido era na janela do quarto de Eugene, como se sempre estivesse observando a rua. E conforme a história do boneco se espalhava, mas as crianças que passavam pela rua se recusavam a cruzar com aquele casarão.
O tempo passou e Eugene cresceu. Eu me lembro de quando ele guardou aquele boneco dentro de uma caixa e o abandonou no sótão com um pesar porque ele iria fazer faculdade de arte e não sabia quando eles se veriam novamente. Eu que fiquei como meus espaços vazios, soube que Eugene conheceu uma garota chamada Anette Parker e que eles se casaram. Mas algo inesperado aconteceu, pois seus pais morreram nessa época. Foram dias tristes, meus cômodos ficaram mais vazios, mas foi graças a isso que fez com que Eugene voltasse a mim, agora com sua nova esposa.
Aquela deveria ser uma nova fase na vida de Eugene, mas enquanto eles faziam a mudança e arrumavam as coisas na minha estrutura, Annete encontrou a caixa que nunca deveria ter sido aberta e perguntou ao Eugene o que era aquilo, quando encontrou aquele boneco. Eu vi a expressão de Eugene voltar como se esquecesse da realidade e encontrasse um velho amigo. Depois disso ele voltou a trata-lo como um membro da família.
Muitas coisas estranhas continuaram a acontecer ao longo de sua vida, mas aquilo já não era mais nenhuma surpresa. Após a morte de Robert em 1974, logo depois de Anette, me puseram a venda para Ryrthle Reuter. Pobrezinha, deveria ter olhado para outra casa qualquer, pois ela e sua filha passaram a serem assombradas pelo boneco Robert. Só depois de vinte anos que eles decidiram doá-lo para o Museu Fort East Martello. E pelo que tenho ouvido ele sempre era encontrado em lugares diferentes do museu com seus sapatos sujos de terra. Aposto que ele estava andando pela vizinhança, tramando algo perigoso ou assustando os cachorros. O museu teve que criar uma caixa de vidro para que Robert não escapasse mais.
Dizem que o museu fazia um tipo de excursão para que as pessoas pudessem visitar aquele boneco amaldiçoado, pois ele ficou muito famoso. Mas antes de entrar, era pedido para que se tivesse respeito com ele, que pedisse permissão para tirar fotos e que evitasse fazer qualquer coisa tola diante dele. No entanto, o museu sempre recebia centenas de cartas com pedidos de desculpas, pois após terem visitado o boneco suas vidas se tornaram insuportáveis.
Eu continuo envelhecendo, mas essas madeiras que fazem parte desse lar continuam a abrigar outras famílias, mas ainda há resquício de histórias em minhas paredes, assim como ainda há resquícios de uma alma perturbada no corpo de um certo boneco Robert.
LABUBU. Quem será? Ou, o que será? Considerado a coqueluche do momento, habita bolsas, quartos, guarda-roupas das jovens moderninhas, ricas, “chiques de morrer”. De olhar vivo e cativante sorriso, valorizado principalmente pela fileira reluzente de seus afiadíssimos dentes, não vê a hora de se ver abraçado pelas suas fãs, para as quais reservava surpresas inesquecíveis, e que ficariam, para sempre, gravadas-cravadas na…
Arte - Matheus Rafael Texto - Antonio Lauriello
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CONTO COMPLETO
Labubu, um ser. Humano? Animal? Um objeto ou elemento da natureza? Até hoje, nada se sabe. Criatura de traços fofos, ar travesso retratado por orelhas pontiagudas, na forma de antenas aguçadas, sempre atentas, a sintonizar-se com jovens moças – manequins em desfile pelos corredores de shoppings à procura de adornos. Habitam vitrines, colocando-se em visão de primeiro plano, exuberante na sua vestimenta de cor aveludada. Tão logo percebido e admirado, retribuí a atenção recebida expondo cativante sorriso largo, deixando
à mostra a “bonitinha” fileira branca dos seus nove reluzentes dentes minúsculos e incrivelmente afiados - A-FI-A-DíS-SI-MOS!, dizem. Eram como que joias valiosas de puro cristal, fazendo jus a quem, de bom gosto, desembolsasse alto valor na aquisição. Embora fosse uma compra pessoal, a jovem fã, Loyla, solicitou da atendente embalagem para presente. Toda radiante, guarda o ‘auto presente’ na sua requintada bolsa de grife e sai
fazendo tipo. Não via a hora de, em casa, se conduzir em várias poses frente ao espelho. Já em seu quarto, deu início ao ritual de auto admiração:- chique da cabeça aos pés, retira da sua bolsa a Labubu, ‘a boneca da hora’. Tão logo desembrulhada, a brancura da fileira dos dentes de Labubu faz destaque, atraindo de imediato as mãos de Loyla que, em concha, aproximam-se de Labubu e ... AAaaaiii...! Brado de dor, muita dor. Loyla, abalada por forte sentimento de aflição, de angústia, move o corpo no sentido inverso ao da boneca Labubu. Com os olhos arregalados, em lágrimas, Loyla vê seus dedos separados, alguns cravados nos pontiagudos dentes de Labubu, outros retorcidos, no chão. Sangue por toda parte. Loyla, em desmaio, com o corpo sem alinhamento vertical, contorcido pelo pulsar das dores e com os seus braços em abraço ao próprio corpo se viu insultada, melindrada por não poder mais – nunca mais – sentir o afago dos próprios dedos. A seu lado, a bolsa de
grife entreaberta colocava em evidência Labubu, o objeto de desejo que, na crença de Loyla, lhe traria prazer, bem-estar, satisfação ou até realizações, ainda que em curto espaço de tempo. Frente ao ocorrido, Labubu, ainda assim, expunha todo um ar de satisfação, reforçado por aquela fileira “engraçadinnnha, bonitinnnha, afiadinnnha, porém não mais branquinnnha” de seus dentes, agora manchados de forte vermelho-sangue, a mordiscar recibo com o valor da compra: caro de doer!
Um boneco sai correndo atrás de pessoas inocentes, com um frio olhar em seu rosto. O quê ele tanto procura? Espera, eu disse “ele” ao invés de “aquela coisa”? Devo estar alucinando, mas também pudera hoje ainda não foi um bom dia.
Arte - Rafaella Mozz Texto - Luís Ayala
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CONTO COMPLETO
Estamos correndo, crianças, jovens, adultos e até idosos. Não há distinção entre quem é pego: uma vez em suas garras é o seu fim na certa. Nos escondemos onde podemos, fazendo o máximo de esforço possível em não gritar de dor e medo. O pânico preenche nossos pulmões, nos anestesiando até perdemos o senso do real e imaginário.
Suspiro por um breve segundo. O quê eram todas aquelas coisas? Isso, coisas, nunca poderiam ser seres vivos. Isso jamais ocorreria com algum ser pensante. Mesmo feras selvagens não atuariam desse jeito em circunstâncias adversas. Ainda assim, algo não cheira bem aqui e começa a feder terrivelmente.
Estamos a algumas horas presos em uma das salas da fábrica, uma das tantas de reuniões burocráticas e tediosas. Mas agora é tudo o que temos. Caramba, e pensar que uma coisa dessas poderia acontecer? O que está acontecendo? Quem é o responsável por tudo isso?
Já fazem 2 dias e a comida acabou. Alguns sobreviventes se juntaram para sair e explorar por recursos. Uma ideia absurda, mas perecer aqui está fora de cogitação. Tolos, todos nós. Como iremos sair desta enrascada? Nada faz sentido, começo a pensar que não haverá um final feliz para todos.
Quanto tempo haverá passado? Depois das primeiras semanas, perdi a conta. Não vejo um rosto humano há dias, tenho sobrevivido de restos conseguidos com muita sorte. Não há uma luz no fim do túnel.
Os gritos pararam a algum tempo já, os últimos de nós devem ter sido pegos e levados para os covis. Sangre e óleo já estão secos e oxidados, não há nada que os faça diferenciar mais. Há apenas um campo de destruição em cada canto, mas continuo a andar.
Ele denovo? Impossível, aquela coisa ainda está viva? Sua forma me assusta, como se fosse a primeira vez. Esse corpo grande e alto, com braços e pernas compridos mas ainda assim firmes e robustos. Me lembro quando partiu uma porta reforçada como se fosse papel na primeira fuga. Esse sorriso horrivelmente grotesco, tão grande que quase não cabe na própria cara. Mas então me deparo com um inusitado descobrimento: seu olhos. É a primeira vez que o vejo, cara-a-cara. Não tinha forças e coragem antes, mas posso ver claramente agora; ele possui 4 olhos. Como é possível, são um dentro do outro, como se tivesse 2 pupilas que se movem arbitrariamente; enfim não sei e não conseguirei saber. Enquanto penso em tudo aquilo ele já me viu e começou a correr em minha direção. Estou ainda preso ao chão como uma planta em um vaso, sem condições de sair. Ele me agarra e ergue no ar. Seu olhar é o mesmo de antes, frio. Vejo sua cara retorcida abrir um bocarra enorme e pela primeira e última vez, uma fileira de dentes afiados dentro dela. Espero que ao menos ele tenha um final bom quando tudo isto acabar.
Um boneco pensa mais do que deveria, entre uma sessão e outra. Talvez já tenha sido uma ousadia sequer ter chegado a pensar e por isso, sua sina seja não interferir em nada. Haverá algum destino não trágico para esta testemunha muda?
Arte - Anthonny da Silva Texto - Luís Ayala
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O TRISTE PASSAGEIRO
Sangue, entranhas, músculos, nervos, ossos e demais partes do corpo humano enchiam o chão da sala. Ainda assim o boneco jazia com seu olhar vazio em cima de seu triciclo, triste como sempre.
Billy sempre teve a curiosidade de saber como seria ser de carne e osso, um ser vivo pleno e com vontade própria.
Mas infelizmente, esse não era seu caso. Estava fadado a servir de marionete para seu dono e senhor, servindo-o como bem lhe fosse conveniente. Estava permanentemente proibido de emitir todo e qualquer som sem autorização. Não poderia mover uma articulação sequer, sem um prévio aviso. Um fim terrível teria caso desobedecesse.
Hora pedalava para dar as más novas às vítimas de seu senhorio, outras eram esperar que os coitados agonizassem em sua frente, sem poder intervir. Não podia se recusar a andar, gargalhar, ameaçar ou ditar as regras dos desafios. Era incapaz de avisar que estes vez ou outra estavam destinados a serem enigmas sem solução, resultando no fim trágico e injusto de suas vidas.
Era uma não-vida muito triste. O pesar era grande demais para seu pequeno peito de madeira. Seu amo sequer o punha para dormir, comer ou passear nas horas livres. Era apenas trabalho, trabalho e mais trabalho. Se não estivesse sendo reparado, costurado, lavado ou secando, estaria ali sim ou sim, pronto para mais performances de diplomacia macabra. Nunca soube o porquê de seu criador nunca mostrar seu verdadeiro rosto, ou falar diretamente com suas vítimas. Talvez fosse timidez excessiva, ou parte do truque como um mágico que distrai a platéia para não revelar o segredo. Quem sabe seria a distância entre o locutor e o ouvinte que criava a imersão nos planos retorcidos dele. “Um gosto retorcido por manipular não somente aos seus convidados forçados, mas também a mim, será?” teria pensado Billy, caso pudesse pensar e chegar a tal conclusão, mas isso também era proibido.
Não importa o quanto pensasse, nunca chegava a nenhuma conclusão. Talvez esses nem fossem seus pensamentos reais e sim, os do titereiro. A única certeza que pairava no ambiente era a de uma vida dura, triste e vazia, compartilhada entre os presos e imposta sobre o pequeno fantoche.
OKIKU, era a sua boneca especial. Ganhara ao completar três anos de idade e ainda hoje, já aos vinte anos, trazia esse presente sempre junto dela, para todo o sempre – assim dizia.
- Nossa, Erika, é incrível o carinho que você dedica a essa sua boneca!
- Sim, mamãe, foi um presente do meu querido irmão; me traz muita alegria, contentamento.
Isso era fato. Todas as noites, antes de dormir, Erika dedicava cuidados bem especiais àquela sua boneca, principalmente aos negros e estilosos cabelos de OKIKU que, certo dia, retribuiu todo esse carinho de uma forma um tanto quanto …
Arte - Emílio Roger Texto - Antonio Lauriello
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CONTO COMPLETO
OKIKU era - toda ela – só elegância! Uma boneca oriental com cabelos (seu maior charme) de estilo “okappa”: com o comprimento na altura do queixo e uma franja curta na testa. Erika, todas as noites, antes de dormir, os alisava/penteava lentamente, cantarolando, para, depois, colocá-la na estante – um altar - , bem à frente de sua cama. Erika adormecia olhando para OKIKU, levemente iluminada pela luz do despertador. Escovar os cabelos da sua boneca era um hábito antigo que sua mãe havia ensinado:
- Cabelos guardam memórias e por isso nunca se deve jogar um fio fora - dizia
ela.
Com essa lembrança, Erika cai em sono profundo, até que, já no alto da noite, um barulho: ... SCRITCH... SCRITCH... SCRITCH... Acorda em susto e rapidamente acende a luz do abajur, já com o seu olhar direto para a boneca. Levantou-se e se aproximou dela. Algo em OKIKU estava estranho. Ficou imóvel com o que via e começou a ouvir. Prendeu a respiração para tentar identificar aquele som e entender melhor o que acontecia. Viu que os cabelos de OKIKU estavam em movimento: cresciam lentamente, sendo direcionados
para baixo pelas mãos pálidas da própria boneca. Erika subitamente recuou ao perceber que o som vinha do corredor, provocado pelos longos fios de cabelo que cobriam o chão do seu quarto. Os cabelos de OKIKU não paravam de crescer, tomando conta do ambiente, girando e se dobrando bruscamente, numa busca frenética de suportes, apoios, como que buscando algo vital para a sua existência: a própria Erika! Perseguida, tentou fugir. Tudo em vão. Fora imobilizada pelos grossos fios de cabelo de OKIKU envolvendo seus pés, derrubando-a, arrastando-a para bem próxima – CARA a CARA!:
- O que você quer? – perguntou Erika.
- Quero o que é meu!
- E o que é seu?
- Ora, ora... os cabelos!
- Mas você já os tem!
- Quero os seus cabelos!
- Os meus?
- Sim, os seus que, na verdade, são meus!
- Como assim?
-Toda vez que você me penteava, percebi alta cobiça, inveja!
- É que eu sempre admirei você, o seu estilo.
- Sim. E foi justamente aí, nessa sua admiração por mim, que você deixou
transparecer o seu desejo – desejo maligno – de que eu perdesse, deixasse de
possuir cabelos. Então…
- Então o quê?
E nesse exato momento Erika, sem atividade e movimentos próprios vê seus cabelos caírem com movimentos reptilíneos, rastejando pelo chão do quarto, em direção à janela entreaberta e... desmaia! Horas depois, acorda. Dirige-se à OKIKU e a vê descabelada, em desordem, desalinho, com os olhos, nariz e faces ocultos pela sua cabeleira. Apenas a sua boca estava à mostra, em condição de espasmo, com movimentos lentos e - para um susto maior - ergue o braço, numa postura agressiva, prepotente, apontando o dedo indicador para a janela, a sussurrar:
- Cuide bem deles. São seus!
Com o coração acelerado, sentindo mesmo perigo de morte, Erika vai até a janela, abrindo-a de vez e vê galhos longos, caídos, em movimentos num cenário-submundo: tronco curvado para baixo, como que em lamento, resistindo ao peso de densa chuva e às correntes de vento a lhe circundar. Grande movimento: barulhos, desordens, confusão. Subitamente, aquele cenário adquire horror maior quando um estranho corpo, de volume
tridimensional, surge lançando fios de cabelo vibrantes, nervosos, com forte aceleração, rompendo barreiras daquela realidade-presente, e, com isso, transporta Erika para outra dimensão: uma dimensão de textura rugosa, áspera, com muitos relevos e imperfeições, compondo estranho universo, onde cabelos/cabeleiras, todos em nó, dançam freneticamente, evocando imagem de fogo intenso, descontrolado e em movimentos rápidos. Violentas labaredas avançam sobre a base viva de couros cabeludos. Erika, oprimida pela ação daquele poder impactante, nunca sequer imaginado, sucumbe. OKIKU, como que em um cerimonial diabólico, a envolve com um feixe de fios estruturados, tramados com seus próprios cabelos, abraça-a e a conduz a um altar iluminado pelo tom avermelhado de um diabólico final de tarde.
VOCÊ!
VOCÊ…
E todos vocês… Que pegaram esse livro para descobrir qual desses bonecos tem a história realmente mais macabra, podem parar com a busca! Pois essa página que VOCÊ tem em mãos, nessas linhas que você está lendo ou ouvindo realmente nesse instante, contém a ESTÓRIA realmente mais escabrosa desse livro inteiro: o conto de origem sobre EU!
Meu nome é ZÉ DO CARVÃO, também conhecido como o Fantoche Superior! Ao me ver você pode imaginar que sou um mero boneco de pano manipulado por esses dois braços que me rodeiam, mas as aparências enganam, meu caro espectador… O cara que parece estar me manipulando está na realidade sob o MEU controle mental!
Arte - Adryan Mamedes Texto - Julio Wong
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CONTO COMPLETO
Você duvida? Irei realmente demonstrar, fazendo com que esse meu suposto manipulador se machuque indubitavelmente! Preste atenção em como, sob o meu comando, o bonequeiro irá desferir um soco em sua própria face! AGORA! Viu? Como pode notar, o cara que até então parecia me manipular agora está desmaiado no chão, enquanto EU continuo aqui falando normalmente com VOCÊ!
Sim, existem bonecos que controlam humanos! Não só os bonequeiros que aparentemente os manipulam, mas muitas vezes toda a equipe que rodeia um boneco está, na realidade, sob o controle de um dos nossos. Nós, os Fantoches Fabuladores, estamos lentamente tomando o controle da SUA sociedade através dos meios de comunicação!
VOCÊ certamente já assistiu trabalhos de outros Fantoches Fabuladores, mesmo sem saber da realidade por trás deles… Um deles tem formato de Papagaio e está diariamente comentando receitas e tomando café da manhã com celebridades. Outro tem forma de Rato e participa de transmissões sensacionalistas com testes de DNA e provas que submetem seres humanos a condições degradantes, como cair na água por errar uma pergunta…
Sim, a TV Brasileira é um terreno altamente propício para abrigar Fantoches refugiados do Fantoverso! Nos anos 90 uma imensa matilha de Fantoches Caninos chegou a fundar e administrar uma emissora inteira! Mas também há relatos de exilados do Fantoverso que ocuparam outros tipos de espaços. Existe uma fazenda que é tocada há mais de 30 anos por um grupo de Bonecos Pecuários. E também um castelo inteiro que abrigou um grupo altamente diverso de Fantoches e outras criaturas mágicas…
Nessa hora VOCÊ deve estar se perguntando “Que diabos é ‘FANTOVERSO’?”. O Fantoverso é uma realidade interdimensional que existe fora do continuum espaço/tempo normalmente aceito. Devido às suas propriedades de cinco dimensões, essa realidade possui um conjunto completamente diferente de leis da física em relação às encontradas em ambientes tridimensionais típicos.
O Fantoverso é uma dimensão altamente mágica onde os habitantes podem manipular a realidade a seu bel-prazer. Isso mesmo que você leu: nós, os fantoches, temos a habilidade de criar literalmente TUDO o que pudermos imaginar! Sim, os Fantoches do Fantoverso são seres extremamente poderosos e realmente cabulosos de um modo que VOCÊ que vive nessa medíocre realidade humana provavelmente chamaria de Deuses, Duendes, Gênios ou coisa do tipo…
Mas para nós, Fantoches, que vivemos no Fantoverso, completamente rodeados de outros Fantoches… Ter esses poderes todos não é tão interessante assim… Você vê, o lance de ter poderes só “tem graça” quando somente VOCÊ os tem. Se todos os seus amiguinhos tiverem realmente as mesmas habilidades e possibilidades, subitamente o seu poder de manipular totalmente a realidade se torna futilmente… BANAL!
Por essa razão, a taxa de emigração dos Fantoches que abandonam o Fantoverso para tentar a vida em outras dimensões é assustadoramente alta… E esta medíocre realidade na qual VOCÊ está, que contém ESTE patético planeta povoado por seres humanos que o chamam de “Terra”, é o destino favorito de imigração dos Fantoches do Fantoverso…
É muito comum um Fantoche chegar nessa dimensão e conjurar uma nova realidade para que ele possa reinar rodeado por seres humanos! E com alguma frequência o Fantoche consegue tomar o controle de um Ser Humano em específico e o usa como instrumento para criar esse seu ambiente. Esses seres humanos sob controle são o que nós chamamos de DESVIADOS.
Por conta da influência mágica dos Fantoches Fabuladores, esses desviados acabam tomando posições de alto poder e influência na sociedade humana, tornando-se seres de alta relevância social e colaborando para nosso plano de longo prazo que é assumir o controle total e completo do planeta Terra!
Mas eu sou mais do que um Fantoche Fabulador, eu sou Zé do Carvão, o Fantoche Superior! Eu não perderei meu tempo entretendo seres humanos com conteúdo televisivo sensacionalista e barato… Eu desviei um ser humano mais habituado a produzir obras realmente polêmicas e escandalosas: Julio Wong, um cara que fez filmes com Zé do Caixão e publica quadrinhos de gosto muito duvidoso.
Através dos conteúdos produzidos pelo meu desviado eu conseguirei entrar realmente na mente dos incautos leitores e obterei totalmente o controle de VOCÊ, VOCÊ e TODOS VOCÊS que consumirem as atrocidades produzidas. Vou dar um exemplo de como funciona minha manipulação, soltando uma das minhas tradicionais PRAGAS DO DIA!
Que o interior do seu intestino se transforme realmente num ROSÁRIO DE LINGUIÇAS, e que você seja atacado por uma matilha de PITBULLS que irão te render, te morder e realmente acessar o interior do teu corpo para comer até a última dessas linguiças enquanto você agoniza, sentido cada dentada…
Isso é o que vai acontecer com VOCÊEEEE que leu ou ouviu realmente até o final esse conto de origem do boneco Zé do Carvão… e com VOCÊEEEE que tem em mãos essa antologia da “Horror em Nanquim”; se você não entrar imediatamente no instagram para seguir agora mesmo os perfis @modelodesign @thejuliowong e @caiococuruto
Essa é a praga do Zé do Carvão!
E praga do Zé do Carvão pega mais do que pão de alho na larica!
É apavorante estar encarcerado com um predador oculto, silencioso e faminto. Que irá consumir sua mente sem te dar a mínima chance de reagir. No entanto, pior que estar
na mira de um algoz, é ter a plena certeza de que será abatido. Mas não saber quando, como e quanto tempo terá até que a escuridão te abraçará uma última vez.
E até que o derradeiro momento aconteça. Tudo estará dentro da sua mente, sua vida
passará diante dos seus olhos e isso simplesmente te paralisará.
Arte - André Sigora Texto -Emílio Roger
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O MEDO QUE PARALISA
Direção
Thyago Bastos
Texto:
Francisco Olivatto, Antonio Lauriello
Ilustração de capa:
Emílio Catrufo
Design Editorial
Adriana Oshiro
Ilustração
André Sigora, Antonio Lauriello, Arthur Arrari, Emílio Catrufo, Guilherme Terrabúio, Danilo Mocillo, Gabriela Castelo, Maria Leitão, Gabriela Parente, Lorenzo Batista, Luís Ayala, Pedro Féres, Pedro Coelho, Pedro Lucas, Pedro Gonçalves, Maya Costa, Martim Mattos, Salviano Borges e Rafaella Mozz e Thyago Bastos.